Escatologia e Ecologia: Problemas entre a Teologia da Última Geração e a Crise Ecológica
Escatologia e Ecologia: Problemas entre a Teologia da Última Geração e a Crise Ecológica
por Mariel Marra [1]
RESUMO
O presente artigo dedica-se a análise dos problemas referentes a corrente de pensamento pré-milenista e seu desdobramento chamado Teologia da Última Geração, frente a necessidade da Igreja em responder aos novos desafios da sociedade tal como a crise ecologica.
PALAVRAS-CHAVE
escatologia; pre-milenismo; ecologia; educação ambiental;
INTRODUÇÃO
Sempre que o assunto é relacionado ao tema escatologia dentro Fé Cristã, percebe-se que o universo de informação e correntes teológicas são muitas, por isso o presente artigo limitar-se-á tomar como objeto de sua pesquisa e análise, apenas corrente de pensamento denominada pré-milenista e seu desdobramento chamado Teologia da Última Geração.
A escolha desta linha escatológica não é aleatória. Nota-se que o pensamento pré-milenista está presente na matriz da religiosidade protestante brasileira, sendo assim a confissão mais encontrada atualmente em denominações pentecostais, neo-pentecostais e também nas igrejas renovadas.
Entretanto esta visão tem causado problemas, pois de certa forma tem imbobilizado a ação cristã em favor da ecologia e do meio-ambiente.
O PRÉ-MILENISMO
A visão escatológica predominante entre os cristãos no século vinte é o pré-milenismo. O pré-milenismo é a visão de que após a sua segunda vida, Jesus Cristo governará a terra por 1000 anos. Assim, a segunda vinda é antes do milênio (pré-milenista). Os pré-milenistas ensinam que na segunda vinda de Cristo, os santos que estiverem vivos serão arrebatados e os santos mortos serão levantados dentre os mortos. Todos esses santos receberão corpos glorificados e imortais. Eles encontrarão Cristo nos ares e retornarão para governar com ele a terra por 1000 anos. Esse período de 1000 anos será um de paz e justiça mundial. No final desse período, Satanás será solto de sua prisão para enganar as nações. Inúmeros exércitos se rebelarão e atacarão Cristo e os santos em Jerusalém; esses exércitos serão então destruídos por fogo do céu. Após a derrota desses exércitos rebeldes, acontecerá a ressurreição e o julgamento final; então começará o estado eterno. Essa é, em resumo, a essência do pré-milenismo; há muitas variações. Entre os pré-milenistas há os que crêem num arrebatamento pré-tribulacional, medo-tribulacional e pós-tribulacional. Os pré-milenistas dispensacionalistas colocam o arrebatamento não na segunda vinda, mas no princípio da tribulação de sete anos.
O desobramento desta visão atualmente deu origem a chamada “Teologia da Última Geração”. No presente artigo este termo será abreviado para “TUG” a fim de que a leitura não seja cansativa.
A TEOLOGIA DA ÚLTIMA GERAÇÃO
A “TUG” toma a passagem de Mateus 24:32-35, como texto-prova para estabelecer uma época para a Volta de Cristo. Segundo ela, a parábola da Figueira é uma referência ao ressurgimento de Israel como nação ocorrido no dia 14 de maio de 1948, e um sinal deixado por Cristo, o qual determinaria a geração que veria a Sua Volta.
Ao tomar esse suposto sinal como referência, os adebtos desta linha de pensamento dizem que naquela data (1948) houve o início a Última Geração; geração que terminará no ano 2018. Segundo eles nós fazemos parte desta geração. Ou seja, a geração que irá presenciar o cumprimento dos sinais será, e que sem dúvida, esta é a última geração que precede a volta de Cristo.
Contudo uma vez que a esperança escatologica da Igreja é arbitráriamente estabelecida por meio desta esta hermeneutica alegórica e descontextualizada da TUG, os seus efeitos nocivos são sentidos em todos os níveis sociais, especialmente na apatia imobilizadora em relação ao esforço ecológico na educação ambiental.
Para estas pessoas toda a criação está prestes a ser destruída, evento este que dará início ao novo céu e a nova terra do milênio, portanto para elas não há motivação para preservar algo que em tão breve tempo será destruído pelo próprio Deus.
Sendo assim dentro de tais comunidades o discurso ecológico e a educação ambiental perde totalmente sua relevancia.
OS EQUÍVOCOS HERMENEUTICOS DA “TUG”
O contexto em que está inserida a parábola da figueira é o discurso profético de Jesus que começa no versículo 3 e se estende até o capítulo 25:46. Este discurso foi proferido por Jesus visando responder às duas perguntas dos seus discípulos (24:3):
1) Quando sucederão estas coisas (a destruição do templo e da cidade de Jerusalém, v.2);
2) Que sinal haverá de sua vinda e da consumação dos séculos. Portanto, o que se segue a partir do versículo 4 até o versículo 31, é a resposta escatológica de Jesus às duas indagações de seus discípulos, na qual ele apresenta “as coisas que haveriam de acontecer” antes e durante a destruição de Jerusalém (4-20), e antes e durante a Sua Segunda Vinda (21-31). Então, Ele conclui esta primeira parte do discurso com a parábola da figueira.
E qual seria a relação desta parábola com os eventos históricos anteriormente preditos? Da mesma forma que a figueira quando começa a brotar as suas folhas, é o prenúncio da chegada do verão, assim também estes acontecimentos serão prenúncio da chegada de Cristo.
Desta forma, quando no versículo 33, Jesus faz referência à “todas estas coisas”, não está se referindo ao reflorecimento da figueira (o que a TUG interpreta erroneamente relacionando-o à volta dos judeus em 1948 para a Palestina), antes está a aludir, tão somente, à destruição de Jerusalém e a Grande Tribulação que acometerá a Igreja de Cristo antes de Sua Vinda (acontecimentos que foram proferidos anterior à parábola e que prenunciarão a Volta de Cristo – assim como os brotos da figueira anunciam a chegada do verão).
Por isso pode-se concluir que a interpretação da TUG de que a parábola da figueira seja uma representação do renascimento político do Israel pós-guerra é completamente arbitrária, alegórica e descontextualizada. Uma vez que também dá à parábola um sentido “oculto” e cabalístico que o próprio Jesus não intentou dar.
A EMERGÊNCIA DA ERA ECOLÓGICA
Segundo Leonardo Boff[2] a crise ecológica reflete a crise entre o ser humano e Deus. Ao cair no pecado e se afastar de Deus, o ser humano entrou em processo de desumanização e abandonou sua missão original de guardar e cultivar a terra. Surge a visão do antropocentrismo. Que é o homem considerando-se superior e mais importante que os outros seres. Estes que só lhe são úteis enquanto objeto para espoliação.
Boff também diz que esse tipo de visão quebra com a norma que abrange tudo: “a solidariedade cósmica”. Todos os seres são importantes; são interdependentes e estão em uma “teia intrincadíssima de relações”. Contudo, o ser humano caído reproduz um comportamento paradoxal, pois coloca-se sobre esta teia de relações e ao mesmo tempo desvinculado de todo o resto da criação.
Recentemente, no dia 02/02/07, entrou em circulação no mundo, o primeiro de três volumes de seu quarto relatório de avaliação global[3], feito por um painel de 500 cientistas, todos reunidos em uma conferência da ONU em Paris, que conclui com 90% de certeza que o aquecimento global foi causado pela ação humana. E que a temperatura da Terra aumentará, até o final do século XXI, entre 1,8°C e 4°C.
São todos os dados contidos nele muito alarmantes, fazendo deste relatório, um divisor de águas, pois a comunidade internacional até hoje encarava os impactos ambientais e a mudança climática como uma ameaça, uma previsão, uma tendência. Mas a partir deste relatório oficial da ONU, a humanidade tem que enfrentar isso como uma realidade que pode, ao longo do século, piorar muito ou pouco, mas sem chances sequer de estabilizar.
Portanto face a tudo se faz extremamente necessário que a Igreja supere seu discurso escatológico e se levante com a voz profética a fim de criar uma nova consciência ética em favor da Criação, que é a nossa casa comum.
CONCLUSÃO
O discurso escatológico predominante da Igreja e seu desbobramento tem de certa forma imobilizado a iniciativa cristã em favor da ecologia. O mundo urge por mudanças e a situação não comporta mais uma visão alienada e atropocentrica.
Uma nova consciência surge como desafio para este século 21. É preciso que agora, mais do que nunca, a Igreja supere seus discursos escatológicos alienantes assim como a sua visão antropocentrica e dê lugar uma visão global.
Precisa-se desta nova consciência humana a fim de que seja gerado uma nova civilização e um novo tipo de espiritualidade capaz de inter-relacionar em amor os seres Humanos, Deus e a Criação.
Neste sentido, a fé cristã consciente, surge como uma importante ferramenta na formação deste novo homem, pois em Cristo, todos são chamados de volta ao Jardim, com a finalidade de estebelecer novamente relacionamento com Deus e assumir sua missão de cultivar e guardar a terra(Gênesis 2. 15).
BIBLIOGRAFIA
BOFF, Leonardo. Ética da vida. 2 ed. Brasília: Letraviva, 2000.
ANJOS, Márcio Fabri et al. Teologia: e novos paradigmas. São Paulo: SOTER,
1996.
SCHAEFFER, Francis A. Poluição e a morte do homem: uma perspectiva cristã da
ecologia. Rio de Janeiro: JUERP, 1976.
[1] Mariel Marra é atualmente bacharel em Teologia pelo Centro Universitário Izabela Hendrix de Belo Horizonte, membro da Igreja Batista da Lagoinha, servindo nesta congregação como diácono. Também trabalha na internet e outros meios de comunicação, contribuindo para uma reflexão salutar da Fé Cristã, chamando a todos ao equilíbrio e moderação em Cristo. Para convites e outras informações: marielmarra@gmail.com
[2] BOFF, Leonardo. Ética da vida. 2 ed. Brasília: Letraviva, p. 36. 2000.
[3] Disponível em: http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1387215-EI8278,00.html <acesso em 02/02/2007>.
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Tags: educação ambiental, escatologia, pre-milenismo, pre-milenismo; ecologia







Tue, Dec 23, 2008
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