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De volta ao Jardim: uma análise atual do protestantismo ocidental frente ao aquecimento global

 

Mariel Marra*

 

RESUMO

 

            O presente artigo dedica-se a fazer uma análise contemporânea e geral da igreja protestante no ocidente, e suas contribuições atuais para com o espírito capitalista, que por sua vez tornou-se o grande responsável pelos impactos ambientais e conseqüentemente o aquecimento global.

 

PALAVRAS-CHAVE

 

fé cristã; igreja protestante; escatologia; aquecimento global; educação ambiental; meio ambiente;

 

Of turn to the Garden: a current analysis of the Protestantism of the occident, front to the global heating

 

ABSTRACT

 

            The present article is devoted to do a contemporary and general analysis of the Protestant church in the occident, and your current contributions to the capitalist spirit, that for your time became the great responsible for the environmental impacts and consequently the global heating.

 

KEYWORDS

 

christian faith; protestant church; scatology; global heating; environmental education; environment;

 

De vuelta al Jardín: una análisis actual del protestantismo occidental frente al acaloramiento global

 

RESUMEN

 

            El presente artículo se dedica a hacer un análisis contemporáneo y general de la iglesia protestante en el occidente, y sus contribuciones actuales para con el espíritu capitalista, que por su vez se volvió el grande responsable por los impactos ambientales y consecuentemente el acaloramiento global.

 

PALABRAS CLAVES

 

fe cristiana; iglesia protestante; escatología; acaloramiento global; educación ambiental; meio ambiente;

 

 

INTRODUÇÃO

 

Falar da fé protestante hoje em dia é dispendioso, pois o número de setores, grupos e sub-grupos eclesiásticos são enormes, tendo cada um suas próprias particularidades. Ou seja, para explanar sobre cada forma confessional presente hoje da Igreja Protestante, seria gasto muito tempo do leitor, correndo ainda o risco de se perder o objetivo principal deste artigo.

 

Portando para melhor compreensão de todos, o presente artigo dedica-se a fazer uma análise geral da Fé Protestante Ocidental na atualidade, tomando a premissa de Max Weber[1] de que o protestantismo historicamente contribuiu muito para a construção das bases do espírito capitalista, o qual atualmente tornou-se o grande vilão do Meio Ambiente e principal causador do aquecimento global.

 

AQUECIMENTO GLOBAL

 

            Recentemente (02/02/07) entrou em circulação no mundo, o primeiro de três volumes de seu quarto relatório de avaliação global, feito por um painel de 500 cientistas, todos reunidos em uma conferência da ONU em Paris, que conclui com 90% de certeza que o aquecimento global foi causado pela ação humana. E que a temperatura da Terra aumentará, até o final do século XXI, entre 1,8°C e 4°C.

 

Veja abaixo os principais pontos do relatório do IPCC: [2]

 

- Até o fim deste século, a temperatura da Terra pode subir de 1,8ºC até 4ºC. Na pior das previsões, essa alta pode chegar a 6,4°C.

- O nível dos oceanos vai aumentar de 18 a 59 centímetros até 2.100, o que significa que 200 milhões de pessoas terão de abandonar suas casas.

- As chuvas devem aumentar cerca de 20%.

- O gelo do Pólo Norte poderia ser completamente derretido no verão, por volta de 2100

- Nos ciclones tropicais, a velocidade do vento e as chuvas serão mais intensas.

- O aquecimento da Terra não será homogêneo e será mais sentido nos continentes do que no oceano. O hemisfério norte será mais afetado do que o sul

- No Brasil, o aquecimento mais intenso ocorrerá no final deste século, no Centro-Oeste e no Norte, regiões que abrigam a Floresta Amazônica.

- O sul da Ásia será uma das regiões mais afetadas

- O encolhimento das geleiras ameaçará o suprimento de água para, pelo menos, 50 milhões de pessoas.

- Ao menos 300 mil pessoas morrerão a cada ano devido a doenças relacionadas com as alterações climáticas

- Haverá morte de 80% dos recifes de coral. A Grande Barreira de Corais, na Austrália, irá desaparecer.

- As emissões passadas e futuras de CO2 continuarão contribuindo para o aquecimento global e a elevação do nível dos mares durante mais de um milênio.

- O aquecimento do planeta se deve, com 90% de probabilidade, às emissões de dióxido de carbono e outros gases que causam o efeito estufa, provocado pela mão do homem.

- As geleiras estão derretendo três vezes mais rápido do que na década de 80. Isso provocou uma diminuição de espessura de 60 a 70 centímetros, em média, em 2005.

- O nível do mar subiu 1,8 mm entre 1961 e 2003.

- Onze dos últimos 12 anos foram os mais quentes desde que a temperatura terrestre começou a ser medida, em 1850.

- A temperatura nos oceanos está subindo e eles estão absorvendo 80% do calor que foi adicionado sistema climático da Terra. Isso faz com que o nível dos mares aumente

- A temperatura média no Ártico tem aumentado quase duas vezes mais do que a média global nos últimos 100 anos

- A quantidade de chuvas aumentou no leste das Américas do Norte e do Sul, norte da Europa e centro e norte da Ásia.

- As secas estão mais fortes no Sahel (África), no Mediterrâneo, no sul da África e em algumas áreas do sul da Ásia.

 

São todos estes dados muito alarmantes, fazendo deste relatório, um divisor de águas, pois a comunidade internacional até hoje tratava dos impactos e da mudança climática como uma ameaça, uma previsão, uma tendência. Mas a partir deste relatório, a humanidade tem que enfrentar isso como uma realidade que pode, ao longo do século, piorar muito ou pouco, mas sem chances sequer de estabilizar.

Entretanto o que chama a atenção, mais do que todos os dados do relatório, infelizmente é o atual comportamento alienado da igreja protestante ocidental frente ao eminente colapso ambiental.

Não é difícil hoje encontrar pessoas que se alegram com tais notícias, uma vez que a visão escatológica apocalíptica que lhes foram apresentadas em suas congregações, associa o fim da raça humana, com o advento de Cristo.

Também são comuns opiniões semelhantes a esta, dentro do Movimento da Batalha Espiritual, um movimento iniciado em meados do século XX cuja proposta principal é a libertação espiritual em vários níveis e transformação global por meios políticos.

Porém quando o assunto é sobre alterações climáticas, segundo o movimento da batalha espiritual, hoje comumente encontrado nas igrejas protestantes do século XXI, atribuem aos impactos ambientais e as conseqüentes catástrofes naturais, as manifestações demoníacas, que segundo eles, possuem o poder de controlar as forças da natureza e causar as desgraças para a vinda do anticristo.

 

ESCATOLOGIA E BATALHA ESPIRITUAL NA IGREJA PROTESTANTE

 

Nota-se que a escatologia, ou seja, o estudo bíblico a cerca dos adventos futuros, tem como propósito principal fornecer esperança e a certeza de salvação a todo aquele que crê no Salvador Jesus Cristo. É motivado pela Esperança que o indivíduo toma suas atitudes no presente. Uma pessoa sem esperança naturalmente perece. Portanto é a visão escatológica a responsável pelo comportamento ético e moral do Cristão.

Entretanto hoje temos uma visão escatológica, que está presente na maioria das igrejas protestantes, que lamentavelmente tornou-se um mero instrumento de previsão futurística, tal como um oráculo pagão, a maioria dos evangélicos hoje, lança mão dos estudos escatológicos para tentar prever a eminência do advento de Cristo.

Ao contrário de fornecer esperança e anunciar a salvação em Cristo, hoje a visão distorcida escatológica, tornou-se neo-adventista, alienando assim os evangélicos de toda uma realidade socio-global lamentável, que por sua vez exige de todos uma ação efetiva e urgente.

Esta visão, principalmente no Brasil, tem levado a Igreja crer num mundo dualista, onde luz e trevas disputam pelo poder mundial, e onde todo mal é projetado sobre o diabo.

“Embora a batalha espiritual seja uma realidade neotestamentária”, como diz Ricardo Gondim[3], “é mister, entretanto, que nossa batalha espiritual não se resuma a meras sessões de exorcismos ou a meras encenações ritualísticas. A atribuição de poderes sobrenaturais a fórmulas e frases prontas não apenas iguala a igreja ao obscurantismo católico da Idade Média, como se mostra inócuo contra os ardis do diabo”.

Por isso precisa-se urgentemente que a Igreja revise sua visão escatológica, pois o dia e a hora da vinda de Cristo, a ninguém foi dado este conhecimento (Mc 13:32). Não se pode por causa do advento de Cristo abandonar a missão original entregue ao homem em Gênesis.

 

DE VOLTA AO JARDIM

 

No livro de Gênesis percebe-se que Deus é o criador de todas as coisas e que faz o homem também como parte desta criação, com o propósito duplo de cuidar e cultivar o Jardim de Deus (Gn 2:15).

Com a desobediência original, sabe-se que o homem foi lançado fora do Jardim e a partir daí foi instaurado um processo de des-humanização até a manifestação de Cristo ocorrida na plenitude dos tempos(Ef 1:10). Por isso, assim como em Adão, todos morrem, assim também todos são vivificados em Cristo (1Co 15:22).

Foi para isso que Cristo Jesus se manifestou ao mundo, para resgatar a identidade humana que havia sido perdida e levar a todos cativos pela liberdade de sua Graça, de volta ao Jardim e novamente ao propósito inicial de Deus para o homem.

Ele é o segundo Adão, o padrão perfeito de humanidade encontra-se Nele.

Nota-se que em Cristo não encontra-se a ganância e a cobiça capitalista responsável hoje pelos impactos ambientais e o conseqüente o aquecimento global que coloca em risco a sustentabilidade da própria criação divina.

O capitalismo não só quer dominar a natureza, mas também arrancar tudo dela, e depredá-la. A lógica do capital, como modo de produção e como cultura, é esta: produzir acumulação mediante a exploração da força do trabalho das pessoas, pela dominação de classes, pela submissão dos povos e finalmente pela pilhagem contra a natureza.

Os impactos ambientais causados pelo espírito capitalista, hoje são sentidos por toda humanidade. Espírito que historicamente os protestantes ajudaram a formar e que hoje negam sua responsabilidade global, preferindo atribuir os males às forças demoníacas.

A este respeito, hoje o futuro da Terra é dramático. Efetivamente, a humanidade se encontra ante uma situação impensável até alguns anos atrás. Deve agora decidir se quer continuar vivendo, ou se prefere sua própria autodestruição. O ser humano se deu a si mesmo os instrumentos de sua própria destruição. Tornou-se o próprio predador e criou o princípio de autodestruição, e agora para continuar vivendo o ser humano obrigatoriamente deverá optar positivamente voltar ao propósito inicial de cultivar e cuidar da criação.

Por causa da des-humanidade e alienação pelo pecado, a cada dia desaparecem para sempre 10 espécies de seres vivos do ecossistema.

A partir de 1972 a desertificação no mundo cresceu igual ao tamanho de todas as terras cultivadas da China e da Nigéria juntas. Perderam-se perto de 480 milhões de toneladas de chão fértil, uma superfície equivalente às terras cultiváveis da Índia e França juntas. Os 65% das terras que um dia foram cultiváveis, hoje já não são mais. A metade das selvas existentes no mundo em 1950 foi tombada. Só nos últimos 30 anos foram derrubados 600 mil km2 de selva amazônica brasileira, o equivalente à Alemanha unida, ou a duas vezes o Zaire.

As imensas reservas naturais de água, formadas ao longo de milhões e milhões de anos, neste século passado foram sistematicamente bombeados e estão próximos a esgotar-se.

A água potável já é um dos recursos naturais mais escassos, pois somente a 0,7% de toda a água doce é acessível ao uso humano. Vai haver guerras pelas fontes de água potável e o Brasil detém a maior parte deste recurso natural e praticamente nenhum sentimento de nacionalidade.

 

CONCLUSÃO

 

Não é mais aceitável que a Igreja Protestante e principalmente a Brasileira continue alheia a tudo isto. Esta precisa se ver como parte deste Mundo, pois o meio ambiente é todo meio onde se vive.

Crente também é gente! A Igreja não pode mais se isentar de cumprir com sua missão original de cultivo e cuidado para com a criação de Deus. Jesus chama a todos de volta ao Jardim! Esta é a responsabilidade Global da Igreja! Se esta não cumprir com o seu papel corre o risco de cair em descrédito.

É notável que sem meio ambiente não há como cumprir com o Ide e executar a grande comissão de Cristo(Mc 16:15). Nenhum missionário sobrevive sem água e tão pouco existirá pessoas para receber a mensagem da Salvação.

Sabe-se que um dos mercados que mais cresce hoje em dia é o mercado gospel, e principalmente no Brasil. Portanto é preciso observar que somente a Igreja Brasileira tornou-se uma grande fonte de poluição e pilhagem do meio-ambiente e isso não há como negar.

Hoje quase tudo é vendável dentro do segmento evangélico. Infelizmente até mesmo a Fé tornou-se um produto seguindo a lógica do mercado capitalista, contudo além de qualquer corrupção, é preciso notar que livros e bíblias cristãs, um dos produtos mais consumidos pela igreja protestante, são feitos com celulose, o que implica diretamente em desmatamento das áreas naturais resultando em impacto ambiental; Exceto quando as editoras optam em adquirir papel de empresas que fazem sua extração de áreas de reflorestamento, contudo estas empresas são minoria dentro do mercado gospel.

Assim também, fala-se dos CDs e DVDs, que movimentam milhões de reais na indústria fonográfica brasileira e mundial. A fabricação destes produtos, infelizmente em seu processo libera toneladas de carbono na atmosfera, contribuindo ainda mais para o efeito estufa e o aquecimento global.

Logo a Igreja precisa entender que sem meio ambiente nenhum ministério eclesiástico será desempenhado pelos Cristãos, portanto tudo aquilo que se acredita ser positivo para o homem e sua Salvação, também isto está ameaçado de extinção se a Igreja não se adaptar a uma nova ética de relação entre os homens e o meio onde vivem.

Precisa-se urgentemente de projetos dentro da área de educação ambiental para as comunidades cristãs, a fim de que os filhos de Deus se conscientizem disso e aprendam a fazer a sua parte no cultivo e cuidado da Criação.

Precisa-se pensar em alternativas ecologicamente adequadas para a Igreja semear a mensagem de Cristo, sem que isto coloque em risco a existência e sustentabilidade das próximas gerações. O dia e hora do advento ninguém sabe, logo é preciso pensar num desenvolvimento sustentável e somar forças em prol da Vida do meio ambiente.

Precisa-se assumir pessoalmente e coletivamente a responsabilidade de cultivar e cuidar da Terra, pois isto é sem dúvida um gesto maravilhoso de amor ao próximo e também a si mesmo. Sendo este o maior dos mandamentos que foi ensinado por Cristo, onde se resume toda a Lei e os profetas(Mc 12:31).

A nova ética cristã não comporta mais a falta da consciência coletiva, que não percebe os atos individuais se refletindo sobre todos, e muitas vezes de forma catastrófica.

Toda criação aguarda ardentemente pela manifestação dos filhos de Deus, a saber, aqueles que são verdadeiramente chamados para ser sal e luz do mundo.

 

Em Cristo

Mariel Marra

 

* Mariel Marra é atualmente bacharelando em Teologia pela FATE-BH (Faculdade evangélica de Teologia de Belo Horizonte), membro da Igreja Batista da Lagoinha, servindo nesta congregação como diácono e professor de história da igreja.Trabalha ativamente na Internet e outros meios de comunicação em defesa do meio ambiente, chamando a Igreja para o equilíbrio e moderação em Cristo por meio das Escrituras.Para outras informações e auxílio com projetos na área de educação ambiental escreva para: marielmarra@gmail.com

 

 

 

 

Notas:

[1] WEBER, Max (1864-1920) – A ética protestante e o espírito do capitalismo.

[2] fonte: http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1387215-EI8278,00.html

[3] GONDIM, Ricardo – Guerra Espiritual na Igreja.

 

Bibliografia:

HORRELL, J Scott org. Ultrapassando Barreiras: igrejas inovadoras e métodos que brotam no Brasil. Vol 2. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1995.

BOFF, Leonardo. Capitalismo contra ecología. Rio de Janeiro, 2005

D´ARAUJO FILHO, Caio Fábio. Principados e potestades. 2ºed, São Paulo:Mundo Cristão, 1984

_______. Batalha Espiritual. São Paulo: Vinde, 1994.

BIRNFELD, Carlos André Sousa. Do ambientalismo à emergência das normas de proteção ambiental no Brasil. Internet : (Mestre em Direito pela UFSC, especialista em Administração Universitária professor de Direito Administrativo e Ambiental da FURG/RS)

CAVALCANT, Clóvis. Meio Ambiente, Desenvolvimento sustentável e políticas públicas. 2.ed. SP: Cortez:Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 1999.

VIOLA, Eduardo J. et ali. Meio Ambiente, desenvolvimento e cidadania - desafios para as ciências sociais. São Paulo: Cortez, 1995.

 

 

Links sugeridos na internet:

http://www.guerreirosdaluz.com.br

http://webcast.un.org/radio/portuguese/mp3/2007/07020201.mp3

http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1388023-EI8278,00.html

http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1387215-EI8278,00.html

http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1386778-EI8278,00.html

http://www.un.org/av/radio/portuguese/story.asp?NewsID=2139

http://www.greenpeace.org.br

http://www.wwf.org.br

http://www.mma.gov.br

 

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