O ESPIRITISMO E O SOFRIMENTO DE JESUS
Tipo: Seitas e heresias / Autor: Pr. Airton Evangelista da Costa
O Espiritismo ensina que a encarnação é necessária aos Espíritos como imposição de Deus “para fazê-los chegar à perfeição”. Mas para isso, “devem eles passar por todas as vicissitudes da existência corpórea”. “Os sofrimentos da vida são, por vezes, conseqüência da imperfeição do Espírito: quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos”. (Questões 132 e 133 do Livro dos Espíritos, de Allan Kardec).
Esse caminhar por vidas corpóreas seria necessário porque “Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem ciência. A cada um deu uma missão, com o fim de esclarecê-los e fazê-los chegar, progressivamente, à perfeição pelo conhecimento da verdade e para aproximá-los de si. Os Espíritos adquirem esses conhecimentos passando por provas que Deus lhes impõe” (Livro dos Espíritos, questão 115).
Os Puros Espíritos fazem parte da classe mais elevada, da primeira classe, e atingiram essa posição porque “percorreram todos os degraus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria, e, tendo atingido a soma de perfeição de que é suscetível a criatura, NÃO TÊM MAIS QUE PASSAR POR PROVAS OU EXPIAÇÕES. Não mais sujeitos a reencarnação em corpos perecíveis, vivem a vida eterna, que realizam no seio de Deus” (Livro dos Espíritos, questão 113 – o realce é meu).
Kardec disse que a autoridade de Jesus originou-se da “natureza excepcional do seu Espírito e da sua missão divina”, e que a “lei do Novo Testamento teve sua personificação em Cristo”, na qualidade de segunda revelação de Deus (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. I-4,6). Jesus “foi o iniciador da mais pura, da mais sublime moral, da moral evangélico-cristã, que há de renovar o mundo, aproximar os homens e torná-los irmãos... foi o iniciador “de uma perfeita moral” (Ibidem, cap I-9).
Conforme a visão kardecista, foi dura a caminhada de Jesus até chegar ao seu ponto máximo de perfeição. Até ser considerado um Espírito Puro, teria passado por inúmeras vidas corpóreas. Foi, quem sabe, escravo de um senhor rude e cruel; trabalhador braçal na construção de castelos reais; uma mulher desamparada ou uma viúva pobre em algum lugar da África. Vencidas essas provas indispensáveis ao seu aperfeiçoamento – e já na condição de Espírito Puro - achou graça diante de Deus, que o escolheu para uma missão divina da mais elevada importância. Então, Jesus não teria vindo para mais uma prova, eis que não havia nele imperfeições a serem removidas, como bem disseram os desencarnados: “A autoridade lhe vinha da natureza excepcional do seu Espírito e da sua MISSÃO DIVINA” (Ibidem, cap. I-4, Kardec, realce meu). A pureza de Jesus seria de tal forma que Deus o escolhera dentre muitos outros Espíritos Puros, eis que estaria Ele no ponto mais elevado da hierarquia espiritual, tudo segundo a visão kardecista.
Ora, depois de tanto sofrimento, ou melhor, depois de sofrer tantas encarnações para aperfeiçoar-se, nada mais justo da parte de Deus do que premiar esse Espírito, que em determinada etapa chamou-se Jesus, com a sublime missão de dar início à “mais pura e mais sublime moral, da moral evangélico-cristã” (Ibidem, cap. I-9).
Refutação
Todavia, há alguns tropeços no percurso desse raciocínio. Primeiro tropeço é quanto à missão de Jesus, que não veio só para ensinar uma elevada moral. Vejam o que Ele diz no começo do Seu ministério: “O Espírito do Senhor é sobre mim, pois me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração; a pregar liberdade aos cativos; e restauração da vista aos cegos; pôr em liberdade os oprimidos; e anunciar o ano aceitável do Senhor... hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos” (Lucas 4.18,19,21; Isaías 61.1).
O segundo tropeço é quanto às Boas Novas trazidas pelo Senhor Jesus que não se resumiram a questões de ordem moral, como foi soprado pelos desencarnados. O Senhor Jesus operou milagres sem conta; ressuscitou mortos, curou leprosos, cegos, surdos e paralíticos; perdoou pecados; expulsou demônios; acalmou tempestade; andou sobre o mar; multiplicou pães e peixes para alimentar milhares de pessoas. Nenhum desses milagres pôde ou pode ser explicado pelo cientificismo do kardecismo. “E, onde quer que entrava, ou em cidade, ou em aldeias, ou no campo, apresentavam os enfermos nas praças e rogavam-lhe que os deixasse tocar ao menos na orla da sua veste, e todos os que lhe tocavam saravam” (Marcos 6.56). “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e, se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem” (João 21.25).
Outra pedra de tropeço são os ensinos de Jesus sobre os assuntos a seguir, para os quais o kardecismo tem ouvidos moucos ou apresenta interpretações equivocadas:
Primeiro, ao dizer “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida, e ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14.6), o Senhor Jesus coloca por terra a intenção do Espiritismo de ser a “Terceira Revelação de Deus, não tendo a personificá-la nenhuma individualidade, porque é fruto do ensino dado, não por um homem, sim pelos Espíritos, que são as vozes do Céu” (E.S.E.,cap. I-6). O Cristianismo rejeita os ensinos dos “Espíritos” e reconhece que “toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente preparado para toda boa obra” (2 Timóteo 3.16-17).
O Ensino de Jesus
Segundo, Jesus ensinou que há dois tipos de homens: os salvos (Mateus 25.31-34) e os perdidos (Mateus 7.13-14; 25.46). Este ensino nocauteia a afirmação kardecista de que “todos os Espíritos tornar-se-ão perfeitos” (Quesito 116 do Livro dos Espíritos).
Terceiro, Jesus ensinou que o perdão de Deus é necessário à salvação do homem (Mateus 6.12; Lucas 23.34). Os “mensageiros do Céu”, todavia, ensinam que basta ao Espírito aceitar as provas de múltiplas encarnações, porque somente “submetendo-se à prova de uma nova existência” a alma pode depurar-se (Livro dos Espíritos, questão 166). E as vozes do além arrematam: “Em cada nova existência o Espírito dá um passo na via do progresso. E quando se houver despojado de todas as impurezas, não mais necessitará das provas da vida corpórea” (L.E.,questão 168). E dizem ainda que somente depois da última encarnação é que o Espírito se torna feliz e puro (L.E.,questão 170). Com essas afirmações, Kardec anulou a natureza do perdão de Cristo, e desprezou, também, a eficácia do Seu sacrifício. Segundo esse raciocínio, o ladrão da cruz, perdoado por Jesus, teria ido para o paraíso levando impureza e infelicidade (Lucas 23.43).
Quarto, Jesus ensinou que retornará não mais para trazer Boas Novas, mas para JULGAR. Como resultado desse julgamento muitos irão para o “fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25.31,32,41,46). Estas declarações são um xeque-mate em algumas teses kardecistas. Ele afirma que voltará. O que virá aqui fazer a “Segunda Revelação” já devidamente substituída pela “Terceira”? Segundo, Ele diz que virá para julgar, e que esse julgamento dar-se-á em determinado momento, esclarecendo que haverá um Juízo Final. Ora, tal ensino não faz parte da literatura kardecista, onde se lê que “todos os Espíritos tendem à perfeição e Deus lhes fornece os meios pelas provas da vida corpórea, mas na sua justiça reserva-lhes, em novas existências, a tarefa de realizar aquilo que não puderam fazer ou acabar numa primeira prova” (L.E., quesito 171). Se admitida a tese defendida pelos “espíritos”, o Senhor Jesus adiaria o Juízo para uma data indefinida, e ficaria aguardando o momento em que todos alcançassem a perfeição – o que os espíritas chamam de “uma nova chance”. Se fosse assim, não haveria necessidade de Juízo Final, porque com Jesus ou sem Jesus todos caminhariam para um mundo ditoso. O Senhor Jesus também falou em “fogo eterno”, ou seja, em castigo eterno num lugar previamente preparado. Ora, o kardecismo, como se sabe, não admite a existência de castigos eternos, pois a justiça da reencarnação estaria no fato de que todos terão oportunidades iguais de limpar suas imperfeições. Seguindo o raciocínio kardecista, quando o Senhor Jesus retornar para julgamento muitos espíritos estarão no meio do caminho rumo à perfeição, fazendo parte da classe dos “levianos”, “perturbadores” e “impuros” (L.E. quesitos 102-106). Como ficarão estes? Seriam salvos assim mesmo? Não mais precisariam reencarnar para serem puros? Seria uma exceção à regra da reencarnação? Ou admitem que o Senhor Jesus mentiu ao dizer que retornaria (João 14.3)? Pode mentir Aquele que veio “ensinar aos homens uma elevada moral”, como afirmou Kardec? Além do mais o Senhor Jesus falou que o “fogo eterno está preparado para o diabo e seus anjos”. Seriam estes os Espíritos imperfeitos, impuros e levianos que ainda não se aperfeiçoaram, conforme declarou Kardec? O Senhor Jesus arremata: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no unigênito Filho de Deus” (João 3.18). Disse mais: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno” (Mateus 23.33). Como se vê, a Palavra fala em CONDENAÇÃO, sinônimo de castigo eterno, inferno e Juízo Final. Os “Espíritos” de Kardec não querem nem ouvir falar nisso. Será porque em casa de enforcado ninguém fala em corda? Vejam o que dizem: “Os Espíritos não ficam perpetuamente nas camadas inferiores; todos eles tornar-se-ão perfeitos. Mudam de classe embora devagar” (L.E., questão 116). Pelo visto o Senhor Jesus, quando vier, vai ter que ficar esperando muito tempo. Quem está mentindo: Jesus ou os “desencarnados”?
O Perdão dos Pecados
O Senhor Jesus declarou que tem poder sobre o pecado. “Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: Filho, perdoados estão os teus pecados”. E pensaram os escribas: “Quem pode perdoar pecados, senão Deus?” Então disse Jesus: “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados [disse ao paralítico]: A ti te digo, levanta-te toma o teu leito, e vai para tua casa” (Marcos 2.5-12). Ficou claro que o Senhor Jesus pode perdoar e, desculpem-me pelo óbvio, quem recebe o Seu perdão fica realmente perdoado. Mas em qual etapa da tese reencarnacionista entraria a necessidade de perdão? Para que serviria o perdão se a perfeição será alcançada de qualquer modo via novas encarnações, mediante as provas de novas vidas aqui na terra? Com seus pecados perdoados ou não aquele paralítico não iria ser aperfeiçoado? A expressão “Espiritismo Cristão” não estaria portanto mal colocada?
O Sofrimento de Jesus
Outra dificuldade de conciliar Cristianismo e Espiritismo diz respeito ao sofrimento de Jesus. Como vimos, a “natureza excepcional do seu Espírito” e a sua divina missão de ensinar uma elevada moral à humanidade, como definiu Kardec, garantir-lhe-iam, pelo menos, uma vida terrena livre de qualquer sofrimento. Não foi o que aconteceu. Ainda criança, Herodes tentou matá-lo (Mateus 2.13); viveu uma vida sem descanso e sem bens materiais (Mateus 8.20); seus irmãos não criam nEle (João 7.5); foi duramente criticado e perseguido pelos fariseus, que desejavam tirar Sua vida (João 11.53); foi traído por um de seus apóstolos (Mateus 26.16); angustiou-se no Getsêmani, “e o seu suor tornou-se grandes gotas de sangue que corriam até ao chão” (Lucas 22.44); sem justa causa, foi preso e condenado à morte (Lucas 22.54; 23.25); não recebeu o apoio de seus discípulos quando foi preso (Mateus 26.56, 70, 72, 74); foi escarnecido, humilhado, açoitado, cuspido, e recebeu na cabeça uma coroa de espinhos (Mateus 27.26-30); finalmente, foi crucificado. Seu sofrimento na cruz é indescritível (Mateus 27.32-56).
Ora, levando em conta a crença espírita, Jesus teria passado por todos os estágios da escala espiritual até chegar à plena perfeição. Inicialmente “alma simples e sem ciência”, Ele teria experimentado muitas lutas e vicissitudes em muitas vidas corpóreas, havendo subido de degrau em degrau na hierarquia espiritual. Já no topo da escada, recebe não mais uma prova, mas uma MISSÃO. Tal dissertação da vida espiritual de Jesus está acorde com a afirmação de um espírita cristão. Quando lhe perguntei se, no entender do kardecismo, Jesus teria sido um homem como outro qualquer, que mediante muitas vidas corpóreas atingiu o mais alto grau de perfeição, ele me respondeu afirmativamente.
Os “espíritos” disseram a Kardec que “para chegar a essa perfeição devem eles passar por todas as vicissitudes da existência corpórea”; que “todos são criados simples e ignorantes...”; que “os sofrimentos da vida são, por vezes, conseqüência da imperfeição do Espírito” porque “QUANTO MENOS IMPERFEIÇÕES, TANTO MENOS TORMENTOS” (realce meu – L.E.,quesitos 132 e 133). Disseram também que os Espíritos Puros, da primeira classe, já “percorreram todos os degraus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Tendo atingido a soma de perfeição de que é suscetível a criatura, NÃO TÊM MAIS QUE PASSAR POR PROVAS OU EXPIAÇÕES” (realce é meu – L.E., quesito 113).
Se correta essa tese, Jesus não mais precisaria passar por provas. Aliás, um certo “Espírito”, a quem Jesus chamou de Satanás, tentou interromper Seus sofrimentos e até ofereceu-Lhe riquezas (Mateus 4.8-11).
Algumas indagações são necessárias: (a) O carma de Jesus não estaria completamente limpo, o que exigiu mais sofrimento? Tal hipótese não se harmoniza com a “natureza excepcional de seu Espírito”, nem com a missão divina a Ele confiada (E.S.E., cap I-4). (b) Jesus era realmente um “Espírito Puro”, mas por sua livre vontade aceitou e buscou o sofrimento para purificar-se mais ainda? Tal hipótese colide com a declaração kardecista de que os puros estão no último degrau da escala e não mais necessitam de provas.
A Verdade
A verdade é que Jesus não sofreu e não morreu crucificado para “expungir” suas próprias imperfeições. Perfeito como era, não precisou de sacrifícios para limpar Seu carma ou para elevar-se na escala espiritual. “Verdadeiramente, Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades” (Isaías 53.4-5). Ele veio para “salvar o seu povo dos seus pecados” (Mateus 1.21). Ele é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1.29), “para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Ele “morreu por nossos pecados”; não morreu na cruz para seu próprio progresso (1 Coríntios 15.3). Ele “se deu a si mesmo por nossos pecados...” (Gálatas 1.4). “Porque para isto sois chamados, pois também Cristo padeceu por nós... o qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano...levando ele mesmo seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro...” (1 Pedro 2.21-24).
A encarnação do Verbo, seu sofrimento e morte, fizeram parte do plano divino para a salvação dos homens. Esse plano começou a ser revelado a partir da queda de Adão, conforme predito em Gênesis 3.15, onde a “semente da mulher” ferirá a cabeça da serpente. Na revelação progressiva, o Messias se apresenta como homem de dores, servo sofredor, traspassado por nossas transgressões, até chegar à Pessoa de Jesus, o Filho, que se entregou à morte expiatória da cruz, “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Jesus não precisava, nem precisa, de infindas reencarnações para atingir plena perfeição, visto que “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus, e se fez carne, e habitou entre nós” (João 1.1,14). Quanto à glorificação de Cristo, escreveu o apóstolo Paulo em sua carta aos Filipenses:
“...pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz. Pelo que Deus também o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Filipenses 2.6-11).
Estabelecido está mais um conflito entre o Cristianismo e o Espiritismo Cristão. E não citei a ressurreição corporal do Senhor Jesus, cujo corpo físico, se encontrado, seria um troféu nas mãos dos incrédulos que negam a Sua divindade. São dificuldades que colocaram em seu caminho ao tentar estabelecer uma estreita vinculação entre cristãos e espíritas.
O ESPIRITISMO E OS ESPÍRITOS MALÍGNOS
Tipo: Seitas e heresias / Autor: Pr. Airton Evangelista da Costa
“O Espiritismo demonstra que esses demônios mais não são do que as almas dos homens perversos, que ainda se não despojaram dos instintos materiais...” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec, cap. XII, item 6). “Se houvesse demônios, seriam obra de Deus. Deus, que é soberanamente justo e bom, não pode ter criado seres predispostos ao mal por sua natureza e condenados por toda a eternidade” (Livro dos Espíritos, Kardec, quesito 131).
Para o Espiritismo, Satanás, anjos maus, demônios são maus espíritos desencarnados, em fase de evolução. Analisemos o que Jesus nos revelou a esse respeito, Ele que foi, segundo Kardec, a “Segunda Revelação de Deus”.
Palavra de Jesus
“E disse o diabo a Jesus: Tudo isto [os reinos do mundo] te darei se, prostrado, me adorares. Então disse-lhe Jesus: “Vai-te, Satanás. Pois está escrito: ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás” (Mt 4.8-10).
Coloco-me no centro da teoria espírita para dizer que Jesus na qualidade de “Espírito Puro” teria plenas condições de identificar ali, não um adversário em potencial, mas um pobre espírito humano de classe inferior, necessitado de reencarnação. Esse “espírito perverso”, ao qual Jesus se dirigiu com palavras de ordem, alcançaria a perfeição mediante muitas vidas corpóreas, Ora, por conhecer o drama de seu “irmão”, Jesus o chamaria pelo nome da sua última encarnação. Diria mais ou menos assim:
“Meu caro Joaquim, não faças mais isto, ouviu? Na qualidade de Bom Espírito eu te aconselho a reencarnar rapidamente e escolher uma prova bem difícil, a fim de expungir suas culpas. Eu também já passei pela prova da evolução. Agora vá em paz, medite sobre sua vida, e largue essa mania de desejar ser adorado. Vá em paz e dê notícias minhas aos seus”.
Essas hipotéticas palavras estariam de acordo com o Espiritismo. Vejam a questão 116 do Livro dos Espíritos: “Os Espíritos não ficam perpetuamente nas camadas inferiores; todos eles tornar-se-ão perfeitos; mudam de classe, embora devagar”. Questão 117: “Depende dos Espíritos apressar sua marcha para a perfeição. Chegam mais ou menos rapidamente, conforme seu desejo e sua submissão à vontade de Deus”. Os espíritos maus só voltarão a Terra se quiserem. Se não desejarem reencarnar, permanecerão por aí infernizando a vida das pessoas. Deus na sua infinita paciência e misericórdia ficaria de braços cruzados esperando a boa vontade deles.
Observem que o diabo daria a Jesus “os reinos deste mundo” (Mt 4.8-9). Algum espírito desencarnado, da “terceira ordem”, teria sob seu domínio o sistema mundial? É evidente que tal domínio se aplica realmente ao império do mal sobre o qual reina o diabo, o deus deste século (2 Co 4.4). O diabo não é dono da Terra, mas possui nela, temporariamente, o seu reino de trevas, engano e sedução. Esse reino foi reconhecido pelo próprio Jesus: “Se Satanás expulsa a Satanás, está dividido contra si mesmo; como subsistirá, pois, o seu reino?” (Mt 12.26).
“Vós pertenceis ao vosso pai, o diabo, e quereis executar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, pois não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, pois é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44).
Como em outras passagens, Jesus identifica, nomeia, aponta, distingue, intitula, indica, mostra, esclarece, particulariza, define o diabo. E diz que ele foi “homicida desde o princípio”. Ora, segundo a tese kardecista da preexistência, as almas são criadas por Deus em estado simples e sem conhecimento, porém sem maldade. Vejam a questão 115 do Livro dos Espíritos: “Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem ciência”. Logo, se o “diabo” a que Jesus se referiu fosse um desencarnado, ou uma alma em seu estado inicial, como poderia ser homicida e mentiroso desde o princípio? Se Jesus estivesse se referindo a um espírito perverso, não poderia fazer distinção entre um e outro, pois todos os espíritos impuros seriam considerados “pai da mentira”. Jesus identifica somente um, o diabo. Não cabe dizer que se trata da “personificação do mal”. Nas duas passagens já citadas há indicação clara de que se trata de uma só entidade, um espírito inteligente, astuto, enganador e vil. Também não cabe o argumento de que se trata de alegoria ou de parábola. Jesus identifica o diabo como uma pessoa, capaz de desejar alguma coisa, influenciar e dominar criaturas humanas, de exercer o comando sobre os que lhe são submissos.
“Então, dirá também aos que estiverem à sua esquerda: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.41).
Jesus particulariza, nomeia e identifica o diabo dentre os demais seres espirituais. Ao anunciar que o destino dos demônios é o inferno, não está se referindo a espíritos humanos, que também terão o mesmo destino se, na vida corpórea, não andaram nos caminhos do Senhor. Jesus afirma que o diabo e seus anjos já possuem um lugar previamente preparado. Ora, se houvesse uma segunda chance, se Jesus estivesse falando de espíritos em vias de progresso, como deseja o Espiritismo, a conversa seria mais ou menos assim: “Olha, meus filhos, porque vocês fizeram coisas erradas na terra retornarão a ela inúmeras vezes até ficarem perfeitos. Mas vocês têm liberdade de escolher se desejam ficar muito tempo errantes, ou se querem reencarnar o mais rápido possível. Mas, por favor, comportem-se melhor doravante, porque desse jeito não dá”.
As poucas palavras registradas em Mateus 25.41 colocam por terra quatro posições do Espiritismo: inexistência do inferno, do juízo final, de Satanás e seus anjos, e existência de chance de recuperação. Considerando que essa afirmação de Jesus se deu há dois mil anos, é possível que Satanás já esteja num bom grau de perfeição, pois “a marcha dos espíritos é progressiva e jamais retrógrada. Eles se elevam gradativamente na hierarquia e não descem do plano a que se alçaram” (Quesito 194, L.E.). É possível conciliar a palavra de Jesus e a dos “espíritos” que influenciaram a mente de Allan Kardec? Merece algum crédito a declaração de Kardec de que “O Cristianismo e o Espiritismo ensinam a mesma coisa” e que “as instruções que promanam dos Espíritos não verdadeiramente as vozes do céu que vem esclarecer e convidá-los à prática do Evangelho”?
Ainda com referência a Mateus 25.41, como Jesus poderia chamar esses desencarnados de “malditos”, se concordasse que eles, no futuro, poderiam ser espíritos puros? Ora, “maldito” diz-se daquele que foi amaldiçoado. Entende-se, portanto, que Jesus estava falando de desencarnados sem nenhuma chance de salvação. Leiam o que o próprio Jesus falou: “Quem nele não crê já está condenado” (Jo 3.18). Como pôde Jesus preparar o inferno para o diabo, um espírito humano com possibilidade de progredir rumo à perfeição?
Certo espírita assim interpretou o versículo em análise: O “apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”, significa, simplesmente, o destino imposto compulsoriamente aos maus, de serem remetidos às reencarnações expiatórias em mundos inferiores ao nosso, até que a lição da humildade seja aprendida. O ‘fogo’ é eterno, isto é, de duração indefinida, ou seja, dura até que seja o pago ‘o último ceitil’, como nos ensina o mestre Aurélio, entre outras coisas, é um conceito de ‘pessoa má’, uma pessoa de ‘mau gênio’.
Ora, segundo o mesmo mestre Aurélio, “eterno” significa “que não tem princípio nem fim”; que dura para sempre; constante; incessante”. Se o castigo é eterno, não terá fim. Nas palavras de Jesus não vemos nenhuma chance para os rebeldes, para o diabo e seus anjos. Conforme o Espiritismo, a reencarnação tem por objetivo o “melhoramento progressivo da Humanidade”, pois em “cada nova existência o Espírito dá um passo na via do progresso” (Quesito 167, do L.E.). Ou seja, todos os espíritos humanos estão sujeitos às reencarnações; todos passarão por esse “inferno”. Então, Jesus teria dito o óbvio? Jesus falou a respeito do Juízo Final, um tempo determinado em que os rebeldes receberão o devido castigo.
A verdade é que Jesus apresentou uma situação em que uns são chamados de “benditos de meu Pai”, a serem recebidos no céu (Mt 25.34), e outros chamados de “malditos”, a serem lançados no inferno (Mt 25.41). Nessa passagem, Jesus define duas classes de espíritos: de um lado, os espíritos humanos que na vida terrena tiveram oportunidade, a única, de se arrependerem, serem obedientes e tementes a Deus; do outro, os anjos decaídos liderados pelo diabo, o “maioral” dos demônios.
“Os fariseus, ouvindo isto, diziam: Este {Jesus] não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios. Jesus disse: “Todo o reino dividido contra si mesmo acaba em ruína...; e, se Satanás expulsa a Satanás, está dividido contra si mesmo; como subsistirá, pois o seu reino? E se eu expulso os demônios por Belzebu, por quem os expulsaram então vossos adeptos? Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, logo é chegado a vós o Reino de Deus”. (Mt 12.24-28).
Os fariseus acreditavam na existência de um “príncipe” ou “maioral” que exercesse autoridade sobre os demônios. O líder dos demônios, chamado Belzebu, ou Satanás, é quem poderia expulsar o espírito maligno que estava no endemoninhado cego e mudo (Mt 12.22). Acreditaram na libertação daquele homem, mas rejeitaram o uso do poder divino. Jesus admitiu a existência desse “príncipe”, porém ensinou que espíritos malignos pertencentes ao mesmo reino das trevas não podem expulsar seus próprios parceiros.
Penetrando no túnel da teoria espírita, nada encontrei sobre a existência de um líder entre os espíritos perversos. Ora, se o Espiritismo diz que “os demônios são as almas dos homens perversos, que ainda se não despojaram dos instintos materiais”, como então poderia omitir informação tão importante? Os “instrutores espirituais” deveriam ter informado sobre esse “príncipe”. Por que ocultaram essa informação?
“Sai deste homem, espírito imundo” (Mc 5.8).
Encontrei no Livro dos Espíritos, quesito 113, a informação de que os “Puros Espíritos são mensageiros e ministros de Deus”, e “comandam a todos os Espíritos que lhes são inferiores, ajudam-nos a se aperfeiçoarem e lhes confiam missões”. Contrariando tal assertiva, Jesus, “Espírito Puro”, não se coloca como orientador desses demônios. Ao contrário, admitiu que eles possuem liderança própria e reino próprio, e até fez a separação irreconciliável entre o Reino de Deus e o reino de Satanás, o maioral.
Em nenhuma das libertações consignadas nos evangelhos, vemos Jesus tratar os demônios com brandura ou confiar-lhes missões para ajudá-los a se despojarem de suas imperfeições. Ao contrário, Jesus disse que o inferno foi preparado para o diabo e seus anjos. A autoridade de Jesus sobre os espíritos malignos não decorre de uma relação fraternal, como de pai para filho, de irmão para irmão, de um líder para seus comandados. Jesus não veio para auxiliar os demônios nas suas fraquezas. Por exemplo, Jesus ordenou que Satanás saísse de sua presença (Mt 4.10).
Jesus contrariou a tese espírita em outro ponto. Veja o quesito 126 do Livro dos Espíritos. “Deus contempla os transviados com o mesmo olhar e os ama com o mesmo amor. Eles são chamados maus porque faliram”. Se correta essa palavra, Jesus deveria ter tratado os demônios com misericórdia, mas não o fez. Jesus chamou de “imundo” o espírito que estava naquele homem. Como admitir que Jesus estava lidando com espíritos humanos com possibilidade de progredir até chegar ao estado de pureza? Em outras situações semelhantes Jesus não manteve qualquer diálogo fraternal com os demônios (Mc1.25; 5.8; 9.25; Lc 13.16).
“Agora será expulso o príncipe deste mundo” (Jo 12.31).
Quem seria esse a ser derrotado na cruz? Uma alma rumo a novas encarnações, necessitada de bons conselhos dos “Espíritos Puros”? Não. O apóstolo esclarece: “Para isto o Filho de Deus se manifestou, para destruir as obras do diabo” (1 Jo 3.8). Paulo confirma: “Tendo despojado os principados e as potestades, os expôs publicamente ao desprezo, e deles triunfou na cruz” (Cl 2.15; Hb 2.14).
Outras referências
“Sujeitai-vos, pois a Deus. Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7).
A Bíblia ensina como proceder para evitar as influências satânicas. O caminho é submeter-se à vontade de Deus; crer que o nosso Salvador Jesus Cristo, o Filho de Deus, veio em carne, morreu para remissão dos pecados e ressuscitou dos mortos (Jo 3.16; Rm 10.9). Considerando que Deus proíbe a comunicação com os mortos (Dt 18.10-12; 1 Cr 10.13-14;2 Cr 33.6; Is 8.19; Lc 16.19-31), qual será a destinação dos que praticam o Espiritismo?
Um dos argumentos usados pelo Espiritismo é o de que se Deus proibiu a comunicação com os mortos é porque existe tal comunicação, pois Ele não iria proibir algo impossível de acontecer. Citam o exemplo da advertência “não pise na grama”. Á primeira vista parece um sólido argumento. Todavia, convém lembrar que Deus conhece as ciladas do diabo. Ele sabe o perigo que corremos em consultar feiticeiros, adivinhos, médiuns ou necromantes. Deus sabe que esse é um caminho maldito, que nos levará à perdição. Na verdade, Ele está advertindo que não são os mortos que se apresentam para nos comunicar alguma coisa. São os demônios que se manifestam. Se essa comunicação com o além fosse uma prática saudável; se trouxesse qualquer benefício aos homens; se os desencarnados fossem de fato mensageiros de Deus, como deseja o Espiritismo, Deus recomendaria essa prática, sem nenhuma restrição.
“Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo... assim sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados... (2 Pe 2.4,9).
Mais uma vez a Bíblia faz distinção entre demônios e espíritos desencarnados. Acima, vimos a autorizada palavra de Jesus. Agora, a de Pedro. A questão 128 do Livro dos Espíritos declara que anjos são os “puros Espíritos”, não formam uma categoria especial de seres criados por Deus, e que percorreram todos os graus rumo à perfeição. Jesus teria sido, portanto, um anjo que passou por esse sistema evolutivo. Essa teoria está em desacordo com o que ensina o Cristianismo. Diz também o Livro dos Espíritos (quesito 131) que “não há demônios no sentido ligado a este vocábulo; os partidários do demônio apóiam-se nas palavras do Cristo. Não seremos nós que contestaremos a autoridade do seu ensino... Mas estamos seguros do sentido por ele emprestado ao vocábulo demônio? Não se sabe que a forma alegórica é um cunho distintivo de sua linguagem e que nem tudo quanto encerra o Evangelho deve ser tomado ao pé da letra?” Não merece crédito tal tese. Iríamos buscar apoio na palavra de quem? Não há como admitir que Jesus falou alegoricamente ao referir-se a Satanás. Jesus definiu, apontou, qualificou, distinguiu Satanás dos espíritos humanos.
“Estava na sinagoga um homem possesso de espírito imundo, o qual exclamou: Ah! que temos contigo, Jesus de Nazaré? Vieste destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus. Repreendeu-o Jesus, dizendo: Cala-te, e sai dele. Então o espírito imundo, convulsionando, e clamando em voz alta, saiu dele” (Mc 1.23-26).
A forma inamistosa com que Jesus sempre se dirigiu aos demônios conflita com a posição kardecista. Na qualidade de “Espírito Puro”, Jesus, se concordasse com o ensino dos “espíritos”, deveria ajudar os demônios a se aperfeiçoarem; deveria saber que “todos os espíritos tornar-se-ão perfeitos”; deveria saber que “Deus contempla os transviados com o mesmo olhar e os ama com o mesmo amor” (Quesitos 113,116,126,127 do L.E.). Perdoem-me pela ênfase nesse ponto e pela repetição. Todavia, a ”Segunda Revelação de Deus” fez exatamente o contrário: mandou que se calassem, chamou-os de imundo, ordenou que entrassem numa manada de porcos, disse que o inferno os aguardava. E ainda, sem nenhuma consideração, disse que o líder Satanás era mentiroso e pai da mentira. O pior é que os demônios foram considerados imundos, isto é, sujos, porcos, impuros, indecentes, obscenos, imorais.
Merecem uma reflexão as palavras do espírito imundo. Ele reconheceu Jesus como uma Pessoa especial, com autoridade e poder; chamou-O de “o Santo de Deus”, e admitiu que haverá um tempo em que receberá um duro castigo. O demônio sabia que o “inferno já estava preparado para ele”. Por isso sua pergunta: “Vieste destruir-nos?” . Usando a forma plural, admite que o castigo alcançará os demais demônios, isto é, “Satanás e seus anjos”. O Espiritismo não concorda com o demônio.
Há falsários no mundo dos Espíritos
O médium pode confiar no espírito que, através dele, escreve cartas, menciona fatos do passado ou ensina alguma “verdade”? Quem responde é Allan Kardec, o pai do Espiritismo. Vejam:
“Um meio às vezes usado com sucesso para assegurar a identidade, quando o Espírito se torna suspeito, é o fazê-lo afirmar em nome de Deus todo poderoso que é ele mesmo. Acontece muitas vezes que o usurpador recua diante do sacrilégio. Mas há os que não são assim escrupulosos e juram por tudo o que se quiser. Deve-se concluir disso que a recusa de um Espírito em afirmar a sua identidade em nome de Deus é sempre uma prova de que usa de impostura, mas que a afirmação nos dá apenas uma presunção e não uma prova da identidade” (Livro dos Médiuns, Allan Kardec, item 259).
Kardec afirma, em outras palavras, ser impossível a identificação de qualquer espírito, ainda que alguns concordem em usar o nome de Deus. E mais:
“Pode-se também colocar entre as provas de identidade a semelhança de caligrafia e de assinatura. Mas além de não ser dado a todos os médiuns obter esse resultado, ele nem sempre representa uma garantia suficiente. Há falsários no mundo dos Espíritos, como no nosso. Certamente se dirá que se um Espírito pode imitar uma assinatura, pode também imitar a linguagem. É verdade. Temos visto os que tomam afrontosamente o nome do Cristo e para melhor enganar imitam o estilo evangélico, excedendo-se nas expressões mais conhecidas: Em verdade, em verdade vos digo” (item 260/261). Em seguida, Kardec ensina que os Espíritos devem ser julgados pela linguagem e por suas ações, e que a questão da identificação é secundária.
Como ter certeza de que determinada mensagem não provém de um espírito maligno, se esse mundo é de falsários, em que até os que juram em nome de Deus não merecem confiança? Que religião é essa em que os instrutores além de serem invisíveis são trapaceiros e mentirosos? O Espiritismo é um terreno minado, cheio de armadilhas, de surpresas desagradáveis. O melhor mesmo é seguir o conselho do salmista: “Entrega a tua vida ao Senhor, confia nele, e tudo Ele fará” (Salmos 37.5).
Os “Espíritos Impuros são inclinados ao mal, objeto de suas preocupações; dão pérfidos conselhos, insuflam discórdia e a desconfiança e tomam todas as máscaras a fim de enganar melhor...arrastam as pessoas à perdição...animam criaturas inclinadas a todos os vícios gerados pelas paixões vis e degradantes, tais como a sensualidade, a crueldade, a traição, a hipocrisia, a cupidez e a avareza sórdida; fazem o mal por prazer... são flagelos para a Humanidade” (Livro dos Espíritos, quesito 102).
O pai do Espiritismo chegou muito próximo da verdade. Descobriu a falsidade e o engano, mas se deixou levar pelos seus próprios informantes espirituais. Jesus foi direto ao assunto ao dizer que não há verdade no diabo, “pois é mentiroso e pai da mentira”. Nem todos os médiuns ficam a meio caminho da verdade. Foi o que aconteceu com Victor H. Ernest. Leiam seu relato:
“Quando o megafone retornou para minha terceira e última pergunta, reexaminei o que o espírito havia dito. ´Ó espírito, crês que Jesus é o Filho de Deus e que Ele é o Salvador do mundo? Crês que Jesus morreu na Cruz e derramou o seu sangue para a remissão do pecado?´ O médium, em profundo transe, foi arremessado de sua cadeira. Foi cair bem no meio da sala de estar e gemia como se estivesse sentindo profunda dor. Os sons turbulentos sugeriam espíritos num carnaval de confusão. Nunca mais fui a outra sessão. Eu havia provado os espíritos e achado que não eram de Deus. O que eu havia pensado ser um grande poder de Deus havia explodido como uma bolha de sabão. A partir dessa ocasião, comecei a buscar a Palavra de Deus para encontrar a verdade” (Eu Falei com Espíritos, p. 24 e 25, Victor H. Ernest, citado por Davi Nunes dos Santos, em O Espiritismo e a Bíblia, S. Paulo, 1978).
O espírito acima foi provado, tal como ensina a Bíblia: “Amados, não creais em todo espírito [pessoa impelida ou inspirada por algum espírito], mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus. E todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus, mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que está já no mundo” (1 João 4.1-3). O “espírito do anticristo” compara-se a Satanás, pois “se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de culto, de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus. A vinda desse iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais e prodígios de mentira” (2 Ts 2.4,9).
A expulsão dos demônios
Extraímos dos quesitos 475 a 480 do Livro dos Espíritos a seguinte orientação sobre a libertação de uma pessoa endemoninhada.
"Havendo vontade firme, a própria criatura poderá livrar-se dos maus Espíritos; um homem de bem conseguirá ajudar a vítima, desde que invoque os bons Espíritos; as fórmulas de exorcismo [libertação] não possuem influência alguma sobre os maus Espíritos; “quando esses Espíritos vêem que alguém toma a coisa a sério, riem-se e se obstinam [teimam em permanecer]. O quesito 478 assim diz: “O melhor meio de libertar criaturas obsidiadas [possuídas por um espírito mau] é cansar-lhes a paciência, não ligar importância às suas sugestões e mostrar-lhes que perdem tempo. Então, ao verem que nada têm a fazer, afastam-se”.
A benevolência com que o Espiritismo trata os demônios fortalece a minha convicção de que os instrutores espirituais são os próprios. Em casa de enforcado ninguém fala em forca. Cansar a paciência dos demônios? Não ligar importância? Para os kardecistas Jesus é o máximo em perfeição e veio com a missão divina de ensinar. Por isso, estou sempre usando Seu nome, ensinos e exemplos. Como ocorreu em várias ocasiões, Jesus não procedeu dessa maneira, não esperou a boa vontade dos “maus espíritos”. Em nenhum momento Jesus tentou cansar a paciência dos espíritos malignos. Contrariando o ensino kardecista, Jesus, além de dar exemplo, nos ensinou como tratar os demônios e como expulsá-los (Mc 16.17). Os demônios são expulsos, e somente assim são expulsos, em nome de Jesus, porque “debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.12); porque Ele está “acima de todo principado, e autoridade, e poder, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” (Ef 1.21); porque “Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Cristo Jesus é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.9-11).
A origem de Satanás e seus anjos
Como foi dito no início, o Espiritismo ensina que demônios são almas dos homens perversos. Em Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, está escrito que a serpente convenceu Eva a desobedecer a Deus (Gn 3.1-6); Deus se dirige a uma entidade espiritual, que no futuro será vencida (v.15); a Bíblia diz que a serpente é Satanás, pois “foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, que engana a todo o mundo” (Ap 12.9); Jesus identificou o diabo como mentiroso e pai da mentira (Jo 8.44). Devemos então procurar entender quem era esse espírito enganador que conversou com Eva. Um espírito humano, desencarnado? Não, Adão e Eva foram os primeiros. Nenhum espírito havia deixado seus corpos, porque a morte só veio depois da desobediência (Gn 3.19). Era uma “alma simples e ignorante”, perversa e rebelde, que aguardava o momento de encarnar? Não. As almas, segundo o Espiritismo, foram criadas sem maldade, porém simples e sem ciência. Então, quem se apresentou a Eva não era uma alma desse tipo; o que Moisés escreveu foi apenas uma alegoria? Não. A desobediência de Eva é confirmada em outros livros da Bíblia (Rm 5.12-21; 2 Co 11.3; 1 Tm 2.13-14; Ap 12.9). Ademais, Moisés, segundo o Espiritismo, foi a primeira revelação da divindade, e veio com a missão de revelar Deus aos hebreus e pagãos (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap I, itens 6 e 9). Então, quem era o espírito imundo que enganou Eva? Satanás é seu nome.
Um dos argumentos apresentados pelo Espiritismo trata da impossibilidade de Deus, justo e bom, ter criado “seres predispostos ao mal por sua natureza”. Esse raciocínio é uma faca de dois gumes para o kardecismo. Seguindo essa mesma tese, perguntamos como surgiram os espíritos maus, perversos, falsários, mistificadores, mentirosos e enganadores, cuja existência é reconhecida pelo próprio Allan Kardec? O Espiritismo explica que foram criados sem maldade, mas com livre arbítrio. A tese é muito parecida com a doutrina da origem do pecado ensinada pelo Cristianismo. A diferença está, dentre outras, na identificação desses espíritos maus. Para o Espiritismo, são desencarnados, isto é, espíritos que encarnaram várias vezes, não passaram pela prova a que se submeteram, faliram na missão, optaram pelo mal.
Com o vimos acima, esses espíritos maus foram chamados de demônios, liderados por um “maioral”. A diferença entre espíritos humanos, Satanás e seus anjos foi estabelecida pelo próprio Jesus (Mt 25.41). Em nenhum momento Jesus acenou com a possibilidade de novas encarnações para os demônios, para serem aperfeiçoados.
A Bíblia diz que Lúcifer era um anjo perfeito, querubim da guarda, inteligente, mas não imutável. Em sua autodeterminação e capacidade de escolher, rebelou-se contra Deus e transformou-se em Satanás. Os anjos que o acompanharam nessa rebelião se transformaram em demônios, espíritos imundos, espíritos maus ou anjos decaídos. Vejamos as passagens bíblicas que falam da situação privilegiada de Lúcifer no céu, e como ficou depois da queda.
“Tu és o aferidor de medidor da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus...eras querubim ungido para proteger...perfeito em seus caminhos desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti...corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor...por terra te lancei...” (Ez 28.12-17).
“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva...Tu dizias em teu coração: subirei ao céu, e, acima das estrelas de Deus, exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei...subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. Contudo, levado serás ao inferno, ao mais profundo abismo” (Is 14.12-15).
As situações e qualidades acima não podem ser atribuídas a um ser humano. Em apoio a essa interpretação, vejamos outras passagens:
“Houve peleja no céu. Miguel e seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e seus anjos foram lançados com ele”. (Ap 12.7-9).
Vejam que as passagens bíblicas, embora escritas em épocas e por pessoas diferentes, se harmonizam. “Levado serás para o inferno”, de Isaías, se harmoniza com a declaração de Jesus de que o inferno foi preparado para o diabo e seus anjos (Mt 25.41). Em Lucas 10.18, Jesus, por sua eternidade, declara que viu “Satanás caindo do céu como relâmpago”. Esta declaração coaduna-se com a expulsão do grande dragão, como relatado em Apocalipse. A afirmação de que “Deus não poupou os anjos que pecaram”, em 2 Pedro 2.4, confirmada em Judas 6, fortalece ainda mais a nossa convicção de que a verdade está com o Cristianismo.
Dados do autor:
Nome:
Pr. Airton Evangelista da Costa
Detalhes:
Pastor da Igreja Assembléia de Deus Palavra da Verdade.
Home Page: www.palavradaverdade.com
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