09/09/2008
JUSTIÇA OU VINGANÇA: Qual é o limite entre a
Justiça e a Vingança?
Por Mariel Marra[1]
"Todo
o homem tem direito à liberdade de opinião e de expressão; este direito inclui
a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e
transmitir informações e idéias por quaisquer meios, independentemente de
fronteiras."
Artigo
19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos
Proponho uma
reflexão a respeito das delicadas fronteiras entre a Justiça e a Vingança, que
podem até ser coisas parecidas, mas não são. Em momentos que mexem com nossas
emoções, devemos fazer um esforço pra não confundir justiça com vingança, pois
a justiça é um valor universal, estando ao lado de outros valores tais como a
liberdade, solidariedade, a dignidade, a democracia... Esses são valores sob os
quais está edificado a civilização em que vivemos.
A Justiça tem
normas, tem rituais, protocolos, tem fundamentos vinculados a direitos, e
quando ela é acionada, ela se defronta com o princípio do contraditório, da
legalidade, da fragmentariedade, da humanidade, da culpabilidade, dentre outros
que devem ser respeitados. Em que de um lado estão os direitos individuais ou
coletivos supostamente violados, e de outro os direitos humanos dos acusados. Nas
democracias, essas normas, esses rituais, fundamentos e princípios, expressam a
vontade e as escolhas da coletividade.
A noção de
justiça é portanto uma noção ética fundamental, sendo que por meio dela as
relações humanas são regulamentadas, sendo que ela objetiva a preservação da
Vida. E para simplificar um pouco, pode-se dizer que a Justiça visa o Bem, mesmo
quando ela se manifesta em forma de punição.
Todavia a
vingança visa o Mal, mesmo quando essa usa do sistema judiciário para se
satisfazer. Ela é inspirada pela argumentação do olho por olho, toma-lá-dá-cá,
aqui se fez aqui se paga, que é freqüentemente nutrida por impulsos de ódio,
rancor e mágoa provocada por um dano que se julga injusto.
A revista Veja
do dia 03/09/2008[2] apresenta a discussão em
torno da vingança, a qual está travada desde antes da civilização, sendo que a
lição histórica demonstra que somente através do perdão a humanidade conseguiu
interromper as espirais de violência provocadas pelo desejo de retaliação.
A vingança
envenena a alma, e mesmo que as escrituras no antigo testamento apresentem a
lógica do olho por olho, Jesus cumpre a Lei com a Graça do Perdão e diz em Mateus 5:38-39 “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém,
vos digo que não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face
direita, oferece-lhe também a outra”.
Devemos deixar
a vingança nas mãos de Deus. A Bíblia diz em Romanos 12:19 “Não vingueis a
vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a
vingança, eu retribuirei, diz o Senhor”. Provérbios 20:22 “Não digas:
vingar-me-ei do mal; espera pelo Senhor e ele te livrará”.
Devemos
resistir a vontade de vingar-nos e devemos expressar amor, não se alegrando
quando o seu inimigo fracassa. Afinal a Bíblia também diz em Provérbios 24:17-18 “Quando cair o teu inimigo, não te alegres,
e quando tropeçar, não se regozije o teu coração; para que o Senhor não o veja,
e isso seja mau aos seus olhos, e desvie dele, a sua ira”.
A vingança é
uma retaliação com objetivos essencialmente destrutivos, a qual reflete um
senso primitivo do que seja justo. A vingança não busca acordos ou reconciliações,
mas tão somente fazer o outro experimentar um dano maior do que causou.
Nós muitas
vezes no ápice de nossas emoções, aproximamos os conceitos de Justiça e
Vingança, acreditando ser a mesma coisa, mas não são. Nossa compreensão pode
até se embaralhar, mas a vingança se esgota facilmente e nunca é saciada plenamente.
O ser humano
vingativo sente apenas um prazer momentâneo que logo desaparece após o “acerto
de contas”, dando lugar a destruição, ao vazio existencial, e muitas vezes ao
sentimento de culpa e remorso pela dor causada intencionalmente no outro.
O melhor
caminho sempre é o da reconciliação, do perdão, da tolerância e do diálogo pessoal
franco, aberto e direto com o Outro. Afinal este é o caminho apresentado por Cristo,
mesmo que os cristãos incoerentemente prefiram levar adiante suas guerras
religiosas, sendo que elas conforme a revista Veja, “são sempre as mais
inexplicáveis, duradouras e cruéis da história humana”[3].
Desse modo enquanto
houver a possibilidade de diálogo e reconciliação, então o Cristão deverá
persegui-la, antes de iniciar sua perseguição ao Outro em busca de vingança.
Nota-se que o
espírito vingativo das Cruzadas contra os Hereges está mais vivo do que nunca.
Todavia não se monta mais em cavalos rumo a retomada de Jerusalém, mas agora são
feitas santas convocações aos irmãos Advogados, Delegados, Juízes,
Desembargadores, e Deputados, para que tais “soldados de Cristo”, se unam a
ministérios evangélicos e seus interesses particulares para com eles formar uma aliança contra “as pragas”
que tem assolado o Corpo de Cristo[4].
Portanto como se já não fosse lamentável por
si mesmo, o fato de se buscar o sistema judiciário para nele satisfazer desejos
de retaliação, ainda convoca-se para uma “Cruzada contra os Hereges”, pessoas
imbuídas de cargos públicos, para deles tirarem favorecimento particular, os
quais de modo algum podem usar de sua influência e cargo, para favorecer direta
ou indiretamente interesses particulares de “irmãos na fé”.
Espera-se sempre que a Justiça seja cega, e não
veja nem um Irmão sequer para ele favorecer, quer ele seja evangélico, Maçon,
Rosa Cruz ou qualquer outra Irmandade existente. Tal coisa além de crime passível
de Denúncia ao Ministério Público, é também pecado de Iniqüidade, o qual é contra a própria Justiça e Eqüidade.
Sendo assim, que Deus nos dê Graça e discernimento
quanto ao que vem a ser Justiça e Vingança, e que nos ajude a perdoar até 70 x
7, aos iníquos que usam o sistema judiciário e político como ferramenta de sua vingança
animal, para tirar dos seres humanos sua liberdade
de opinião e de expressão, sendo que “este
direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar,
receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios, independentemente
de fronteiras.", conforme rege o artigo 19 da
Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Um forte
abraço
Mariel
Marra
http://www.guerreirosdaluz.com.br
BIBLIOGRAFIA:
Bíblia Sagrada, Almeida
Revista e Atualizada, Sociedade Bíblica do Brasil.
PACKER, J.I.. O
Mundo do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 1982.
FAVARO, Thomaz.
O dilema entre o perdão e a vingança. Veja,
ed. 2076, v.41, n.35, p.86-93, 03 setembro 2008.
BITENCOURT,
Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal:
Parte Geral. v. 1. 10. ed. São Paulo: Saraiva. 2006.
TASSARA,
Andrés Ollero. 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Revista de Direito
Constitucional e Internacional, São Paulo, v.11, n.43, p.57-72,
abr./jun. 2003.
ORKUT
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=866901
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[1] Mariel Marra é atualmente bacharel em Teologia pelo Centro Universitário
Izabela Hendrix de Belo Horizonte, membro da Igreja Batista da Lagoinha,
servindo nesta congregação como diácono. Também trabalha na internet e outros meios de comunicação, contribuindo
para uma reflexão salutar da Fé Cristã, chamando a todos ao equilíbrio e
moderação em Cristo. Para convites e outras informações: marielmarra@gmail.com
[2] VEJA, p. 86.
[3] VEJA, p.87.
[4] MASTRAL, pergunta 19, http://danielmastral.com.br/perguntas.htm
.