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OS PROBLEMAS DO MOVIMENTO DE BATALHA ESPIRITUAL

 

A Batalha Espiritual tem conceitos controvertidos que esta pesquisa procurará descrever. Não serão analisados de modo profundo e detalhado. Somente os princípios gerais serão abordados.

 

1. Augustus Nicodemus Lopes define o arcabouço teológico do movimento como ekbalístico[1], termo derivado do verbo grego que significa expulsar, atacar, expelir. Éa idéia de que todo o mal, toda a adversidade, tem origem no diabo. Todos os contratempos que um ser humano experimenta são causados por demônios. Naturalmente, o movimento tem aqui um sério problema conceitual, pois é fácil provar que nem todo o mal tem origem maligna.

Alguém pode ficar doente por um simples descuido, como sair de um banho quente e pisar num chão frio, e ficar resfriado. Jesus curou muitas pessoas sem expulsar demônios delas, mas ordenando que a doença saísse, que o cego enxergasse, inclusive ordenando que um paralítico andasse, e recomendando que não mais pecasse, “para que não te suceda coisa pior” (Jo 5.14). Fica claro aqui que aquela paralisia tinha alguma ligação com um pecado não deixado. Entende-se por correta a afirmação da contemporaneidade da expulsão de demônios, como sinal e manifestação que seguiria àqueles que cressem (Marcos 16.17), como continuidade do ministério de Cristo (João 14.12). Porém, fica claro, como foi demonstrado, que nem todos os casos de doenças físicas e emocionais, além de outros episódios, são causados por demônios. O movimento até admite que nem tudo é causado por demônios, mas, na prática, a cosmovisão desemboca na luta contra eles. Rita Cabezas argumenta que: “Não me levem a mal, não quero que interpretem que afirmo que atrás de todo o sintoma há um ou vários demônios. Isto seria um erro enorme. Mas sim creio que estes se escondem atrás de muitos sintomas resistentes a desaparecer[2].

Cindy Jacobs, por exemplo, no capítulo “O Desequilíbrio na Intercessão” de seu livro Possuindo as Portas do Inimigo, fala sobre os erros de discernimento na Batalha Espiritual. Ao se procurar nesse capítulo algo que fale sobre o erro de interpretar qualquer doença como tendo origem maligna, não se encontra nenhum ensino a respeito. Quando ali é mencionado algum erro de interpretação sobre pessoas doentes, encontra-se apenas uma explicação sobre o intercessor suportar as enfermidades de outras pessoas, ou seja, ao orar por alguém enfermo, o intercessor pode manifestar os sintomas da doença que acomete a pessoa por quem está intercedendo. Às vezes, diz Cindy, a doença não é da pessoa por quem se ora; é do próprio intercessor. Ela cita o exemplo de uma líder de oração que ficou enferma, dizendo que ela afirmou publicamente que aquela doença não era dela, que os sintomas eram irreais e que ela carregava o sofrimento de uma pessoa mais fraca pela qual estava intercedendo. No decorrer dos dias piorou e, ao buscar socorro médico, era tarde demais. A diabetes a matou. Ao explicar o fato, Cindy diz que essa idéia vem de um livro chamado O Intercessor, de Rees Howells. Ela diz o seguinte:

 

Não quero com isto atacar um homem que, pessoalmente, considero um dos pioneiros na intercessão e um grande intercessor. Quero, isto sim, mostrar que mesmo sendo um grande intercessor, Rees Howells, ao escrever sobre o assunto, não explicou corretamente o que o Senhor queria lhe dizer quando falou em “identificação”[3]

 

Para Cindy, “identificação” não difere muito do que Rees Howells entende a respeito do conceito. O intercessor, também para ela, pode sofrer os mesmos sintomas da pessoa que é

o alvo da intercessão[4]. O problema aqui é que ela não cita nenhuma passagem das Escrituras para embasar o que diz, a não ser 1 Pe 2.24, que fala que pelas pisaduras de Cristo fomos sarados[5]. Quando ela diz que Deus “falou” com Rees Howells, parece que este ensino foi dado através de “revelação”; além disso, não explica que muitas das doenças das pessoas têm apenas origem natural.

 

2. O  movimento  tem  uma  cosmovisão  dualista ou maniqueísta, ainda que os seus proponentes não o definam desta maneira. Segundo Neuza Itioka, em sua tese de doutorado que virou livro,[6] a cosmovisão ocidental é rígida, não considerando de forma correta a interação que haveria entre o mundo físico e o espiritual, o que a cosmovisão oriental considera de forma natural. Para o oriental, a interação entre homens, anjos, demônios e entidades deve ser encarada como comum. Porém, em sua práxis a Batalha Espiritual no mínimo se denuncia como maniqueísta, como pode ser visto em livros como os de Rebecca Brown e Eduardo Mastral, nos quais existe uma onipresença diabólica e uma onipotência por parte do Maligno, fazendo com que os cristãos sejam quase que reféns das forças diabólicas, geralmente na defensiva, e estejam obrigados a rituais diários e constantes de unção e

expulsões para não serem agredidos por demônios.[7] Naturalmente, este conceito é contrário àquilo que as Escrituras ensinam a respeito da onipotência de Deus e da sua soberania. O diabo, segundo o ensino tradicional da igreja, está subordinado a Deus, e sua atuação e a dos demônios é limitada pela vontade soberana de Deus, como em Jó cap. 1.

O diabo e seus demônios têm o seu campo de atuação e um poder limitados, porém de certa eficiência, que não deve ser ignorado nem mensurado de forma incorreta. É interessante observar, citando ainda o livro de Jó, que Satanás usou as forças da natureza (o vento) para atingir os filhos de Jó; foi ele também quem colocou a doença em Jó. Percebe-se que existe ao menos uma possibilidade de Satanás atuar também desta forma, contrariando afirmações por vezes jocosas da parte de alguns, de que há pessoas que “vêem o diabo em tudo”. Pode-se afirmar que, se não é Satanás o autor de todos os males que afligem o ser humano, ao menos ele pode tirar proveito até mesmo das situações que ele não criou. Porém, o diabo não age sem a permissão de Deus. Nicodemus Lopes afirma:

 

A Bíblia nos ensina que Satanás não pode atacar os filhos de Deus sem a permissão dele. Foi somente assim que pode atacar o fiel Jó (Jó 1.6-12; 2.1-7), incitar Davi a contar o número dos israelitas (I Cr 21.1 com 2 Sm 24.1) e peneirar Pedro e demais discípulos (Lc 22.31-32). Os crentes têm a promessa divina de que ele só permitirá a tentação prosseguir até o limite individual de cada um (1 Co 10.13), o que só faz sentido se o Senhor tiver pleno controle sobre a atividade satânica.[8]

 

3. Em decorrência, há uma supervalorização do diabo, de modo que igrejas e ministérios devem a sua existência à luta contra as forças malignas, deixando de lado ou não dando a importância devida aos demais aspectos do evangelho e suas grandes doutrinas, como a obra redentora, substitutiva e expiatória de Jesus Cristo, a queda do homem, a esperança futura, bem como outras implicações do evangelho, no sentido de promover comunhão, assistência social, estudo e reflexão aprofundados das Escrituras. O importante é o aqui e o agora. Realmente, vê-se quase que uma obsessão pelo diabo em livros e literatura do movimento. Isso é decorrência da característica ekbalística do movimento, que dualiza a realidade e reduz a atuação da igreja apenas ao combate às forças das trevas. É claro que a igreja perde muito com isso. Desse modo, entendem-se as críticas ao movimento, ligando-o ao pragmatismo (tentativa e erro, não importando o como fazer, mas sim o resultado) e à onda de superstição e misticismo que estamos vivendo desde as três últimas décadas do século XX, definindo a Batalha Espiritual muito mais como um fenômeno decorrente da época atual, e não como um “novo mover” ou a “última revelação” para a igreja, conceitos que o movimento reivindica para si.

É preciso lembrar que a base teológica do movimento é (arminiana e) dispensacionalista, o que favorece o entendimento de que a guerra espiritual faz parte do derramar do Espírito Santo nesta dispensação, que é chamada pelos seus proponentes de dispensação do Espírito (ou da graça ou também da igreja), dispensação esta que antecederia

o arrebatamento da igreja e a Grande Tribulação. A questão demoníaca entra em cena para também justificar esta idéia: haveria uma grande manifestação de demônios nestes dias que antecederiam a vinda de Jesus como houve um fenômeno semelhante nos dias do ministério terreno de Cristo, quando ele se deparou com uma atividade demoníaca que não encontra paralelo em outras narrativas bíblicas, a não ser quando a Bíblia fala do futuro. É esse futuro que o movimento acredita que está, no mínimo, inaugurando.

 

4. Não  é  clara a   posição  do movimento  quanto à suficiência da obra redentora de Jesus Cristo, a começar pelas posições de alguns pregadores que são citados e tidos como referenciais do movimento, como é o caso de Kenneth Hagin. O movimento ao qual ele está ligado, a confissão positiva, afirma que “a obra na cruz não foi suficiente para redimir o homem”. Jesus, além de padecer na cruz, teve que “ir ao inferno, para também ali padecer”[9].O raciocínio é o seguinte: Jesus nos substituiu em tudo. Morreu, para termos vida; sofreu, para que não soframos mais; foi ao inferno, para ganharmos o céu. Se ele nos substituiu em tudo, ele teria que não só ir ao inferno, mas lá sofrer, para substituir totalmente e finalmente o ser humano. O homem iria sofrer no inferno; Cristo foi até lá e sofreu em nosso lugar, realizando uma obra completa de substituição. Aqui se tem um típico exemplo de raciocínio lógico,  porém  sem  base  bíblica.  Por  essa  linha de pensamento, seria necessário entender a obra de Cristo da forma como foi apresentada: Cristo substituindo o homem em tudo, inclusive em seu sofrimento infernal. Porém, não é o que as Escrituras dizem a respeito da ida de Cristo ao inferno. Ele não foi para ali sofrer; foi declarar a sua vitória[10].  Nicodemus Lopes explica que a obra na cruz do calvário foi suficiente:

 

O apóstolo Paulo nos esclarece que o escrito de dívida que nos era contrário, a maldição da lei, foi tornado sem qualquer efeito sobre nós. Jesus o anulou na cruz (Cl 2.13-15; Gl 3.13). Ou seja, toda e qualquer condenação que pesava sobre nós foi removida completamente quando Cristo pagou, de forma suficiente e eficaz, nossa culpa diante de Deus[11].

 

A obra do Calvário foi suficiente, porque ela mudou a “origem” do homem. E a origem determina nosso destino. Como é isso? Tome-se como exemplo duas malas cheias de dinheiro. Ambas estão recheadas de notas de cinqüenta reais. Uma delas é produto do trabalho honesto de um cidadão. A outra é dinheiro proveniente do tráfico de drogas. Em ambas o dinheiro é autêntico, porém a primeira mala é de dinheiro limpo, enquanto que a outra é de dinheiro sujo. Como as mesmas notas de cinqüenta reais assumiram adjetivos tão diferentes? Por causa da origem do dinheiro. Esta origem determinou o caráter de ambas as quantias. A origem de todo homem é em Adão. E, por causa do pecado de Adão, todos pecaram. E esta origem determinou que o seu destino seria a ira de Deus e a condenação eterna. Deus, então, muda a origem, e, portanto, o destino do pecador. O apóstolo Paulo diz que Cristo é o “último Adão” e o “segundo homem” (1 Co 15.45,47). Último Adão porque nele tudo aquilo que pertencia ao primeiro Adão deveria ser morto, desfeito. Por isso Cristo é o último, não o segundo Adão. Ele é “segundo homem”, e não o último homem, porque Deus inicia em Cristo uma nova raça de seres humanos, eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus (1 Pe 2.9). E tudo isso se concretiza na cruz, pois o último Adão é cravado nela, e o segundo homem surge após ela, na ressurreição. A cruz divide a história, e concretiza os propósitos de Deus. Aquele, pois, que está “em Cristo” é uma “nova criatura”. Esta obra é suficiente[12].

O que é encontrado na teologia do movimento, em alguns momentos, é um raciocínio lógico, concatenado, porém sem um respaldo bíblico comprovado. A origem é mais dedutiva, filosófica, e menos escriturística. E as tentativas de embasá-lo na Bíblia acabaram não sendo satisfatórias[13]. Como já foi demonstrado ao longo da pesquisa, o movimento não atrai credibilidade principalmente pelas fontes legitimadoras de sua teologia, que vêem especialmente de testemunhos de pessoas e relatos de demônios, além de movimentos também controvertidos e não aceitos pelo ensino tradicional evangélico, como a confissão positiva.

Em decorrência disso, a obra libertadora de Cristo, ao ser ensinada pelo movimento de Batalha Espiritual com uma ênfase quase que total no aspecto ekbalístico, de ataque ao Diabo, deixa de ser apresentada em seu outro importantíssimo aspecto: o de descansar na obra realizada. É o que se passará a analisar.

Parece contraditório, ao falar-se em libertação e guerra espiritual, falar-se em descanso. Porém, ao estudar-se livros como Efésios, que é considerado o “manual de guerra espiritual” do Novo Testamento, observa-se uma linguagem mais defensiva do que ofensiva. Basta olhar para o capítulo seis e analisar as armas espirituais ali apresentadas ao cristão para

o combate contra as forças das trevas. Ali encontramos a couraça, o capacete, o cinto, as sandálias, o escudo e a espada. Somente esta última é uma arma ofensiva, e mesmo ela pode ser usada como arma de defesa. O que isso sugere? Sugere que a guerra espiritual é tratada mais em termos de defesa de algo já conquistado do que uma ofensiva para conquistar algo ainda não possuído. Nicodemus Lopes afirma:

 

Paulo apresenta nessa passagem [Efésios 6] algumas razões pelas quais a igreja deve tomar toda a armadura de Deus. Em primeiro lugar, para ficar firme contra as astutas ciladas do diabo (6.11). O propósito da armadura é que a Igreja permaneça firme, fundamentada e firmada em sua posição de vitória, em Cristo Jesus, e assim, firme contra as ciladas do diabo[14].

 

Esse é o ponto no qual a divergência nasce e determina duas interpretações diferentes. A interpretação tradicional, ortodoxa, vê passagens como 2 Coríntios 5.17: “Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo”, como sendo uma inequívoca afirmação dessa obra realizada em Cristo. O passado foi anulado. Não há necessidade de algo ainda ser feito hoje a respeito dele.

Já o movimento de Batalha Espiritual crê na obra realizada em Cristo, mas também crê

que esta obra precisa ser apropriada por todo aquele que crê em Cristo. Ela não é realizada automaticamente. A Missão Evangélica Shekinah chama a interpretação ortodoxa de “teoria contrária”, e afirma o seguinte:

 

[Ser] nova criatura – para quem? Satanás jamais aceitará que você é nova criatura. A família também nos casos em que só há um só convertido. Há pessoas que são renegadas pela família porque se tornaram crentes. O único interessado em você ser uma nova criatura é o próprio criador, Jesus Cristo. [As] coisas velhas já passaram – para quem? Satanás está sempre te acusando do passado. A Bíblia diz: Ele é o acusador. A família que não é cristã, acusa os próprios familiares que são crentes, principalmente se eles erram. As coisas velhas já passaram, só para Jesus, porque a Bíblia diz que Ele lança o pecado atrás de suas costas e não se lembra mais deles[15].

 

O problema com a afirmação acima é que o fato de Satanás não aceitar que o crente nasceu de novo não muda a realidade de que ele nasceu de novo! Satanás aceitando ou não, a obra de Cristo independe dessa aceitação; e afirmar que o inimigo estará sempre acusando e atacando o cristão não é novidade, pois a Bíblia adverte a esse respeito como sendo algo com que cada cristão irá lidar até o fim de sua vida.

Como já foi demonstrado, o conceito da Batalha Espiritual de que a igreja recebeu autoridade para lidar com os poderes das trevas favorece a idéia de que mesmo as coisas do passado devem ser tratadas por ela. É necessário, então, distinguir onde a controvérsia se revela, que é nos limites da obra libertadora de Cristo. O que se observou nesta dissertação é que este tema necessita ser mais pesquisado e estudado. Por um lado, temos o ensino bíblico que afirma, com razão, que, em Cristo, “as coisas velhas se passaram, tudo se fez novo”, sem, porém, explorar e discorrer sobre quais são os limites e modos pelos quais a libertação de Cristo ocorre na vida das pessoas. Do outro lado, temos a Batalha Espiritual não discordando disso, porém entendendo que esta verdade precisa ser apropriada, a partir da conversão do indivíduo, criando uma situação na qual uma posição clara sobre suficiência da obra de Cristo não é esclarecida. Percebe-se aqui um hiato, uma lacuna que deve ser explorada. Enfim, de que modo Cristo liberta alguém? Qual é o alcance, tempo, modo dessa libertação? De que alguém precisa ou pode ser liberto? São perguntas que precisam ser cuidadosamente respondidas.

 

5. Como mais um desdobramento da deficiente elaboração teológica do movimento, não fica esclarecido qual é o seu entendimento sobre a soberania de Deus. Como já foi demonstrado anteriormente, em vários lugares da literatura da Batalha Espiritual encontram¬se relatados fatos nos quais fica difícil enxergar um Deus soberano presente, quando, nesses relatos, parece ser Satanás, e não Deus, quem é onipresente, onisciente e onipotente.

O ensino bíblico demonstra que o diabo, mesmo sendo um ser moral responsável e possuindo poderes, é um ser submisso à vontade de Deus. Mesmo que se encontre nas Escrituras advertências contra os ataques malignos e o poder do reino das trevas (Lc 4.6; Jo 14.30; Ef 6.12; Tg 4.7; 1 Pe 5.8), não há um ensino que admita que esse poder é independente do poder e soberania de Deus. O povo de Deus não pode ser atacado sem a permissão de Deus. E isso, particularmente, não é tratado de forma meticulosa pelo movimento de Batalha Espiritual. Porém, por outro lado, a Bíblia dá a entender que a permissão para o ataque maligno seria constante, isto é, o diabo é apresentado como alguém que pode “tragar” o cristão em qualquer momento, daí a advertência de Pedro (1 Pe 5.8). A vigilância do crente é necessária, e em textos como esses é que se necessita de maior elaboração sobre as condições em que a vigilância é determinante, mesmo que a soberania de Deus esteja preservada.

Essa “zona de equilíbrio” entre as ações humanas, morais e responsáveis, e a soberania de Deus, tem sido alvo de discussões. Clark Pinnock têm defendido uma posição mais “moderada” a respeito da soberania de Deus do que o posicionamento de Agostinho e Calvino. Pinnock afirma que um controle soberano (absoluto) da parte de Deus nega e anula a habilidade e a liberdade das pessoas. Ele defende a afirmação de que Deus criou o mundo com uma certa medida de autodeterminação, e que governa um mundo livre e dinâmico, sem determinismos. Porém, este ensino tem sido rechaçado pelos teólogos reformados, por não verem nele uma posição que estaria de acordo com o ensino bíblico acerca do reino de Deus neste mundo.[16] Nicodemus Lopes fala sobre a coexistência do reino de Deus e o reino das trevas:

 

Cristo já reina, mas ainda não liquidou literalmente todos os seus inimigos, como Satanás e a morte (1 Co 15.20-28; Hb 2.8). O reino de Deus já está entre nós, mas ainda temos de orar “venha o teu reino”. Já estamos salvos da condenação do pecado, mas ainda não da suapresença e da morte que ele acarreta (...) É à luz desta tensão que podemos entender que o diabo já foi vencido, despojado, limitado e amarrado, mas ainda não aniquilado[17].

 

Percebe-se a tensão entre estes dois reinos, porém isto não é sinônimo de igualdade de forças, de um dualismo maniqueísta que o movimento de Batalha Espiritual, na prática, ensina. Mesmo que em sua literatura a soberania de Deus seja reconhecida, sempre o é em termos de uma soberania potencial, que a igreja precisa transformar em realidade[18].

 

6. Por último, a Bíblia diz que o exercício dos dons espirituais e ministeriais serve para a “edificação da igreja” (1 Co 14.12). Porém, como já foi mencionado, no cenário da guerra espiritual os dons acabam servindo para a “edificação” de muitos de seus pregadores, atraindo as atenções dos fiéis para si, como “super-homens” ou “super-ungidos” de quem a “unção” é liberada para abençoar as pessoas. Em muitos lugares esta prática não é desencorajada, antes incentivada, bem como não é desestimulada a “fama” que é criada entre o povo. Mesmo reconhecendo que é Cristo quem liberta, na prática as atenções são para os “libertadores”. São comuns palavras como “transferir unção”, “estar debaixo da unção desse ministério”, “Deus me falou”, frases que por si só causam o resultado descrito, e são usadas muitas vezes sem o menor critério e cuidado. Não se pode deixar de citar também a aparente “preocupação” com nomenclaturas que, alegadamente, são bíblicas, porém são usadas fora de contexto e sem o respaldo que o bom senso pede, deixando a noção de que a preocupação não é com a exatidão bíblica quanto à nomenclatura ministerial, mas sim com o status que ela pode conferir. “Apóstolos”, “profetas”, “bispos” e outros nomes têm-se multiplicado, sem critério algum, o que provoca o efeito contrário, o de banalizar e vulgarizar o uso, ao ponto do assunto ter se tornado alvo de zombarias e brincadeiras, nas quais fica-se imaginando que próximo “título” irá surgir. E a idéia de autoridade delegada ao crente para ser o embaixador de Cristo, que é bíblica (Mt 10.1; Mc 16.15; Lc 10.1,17; Jo 14.12,13; At 1.8; Ef 1.18,19), passa a ser usada para “autorizar” mandos e desmandos de muitos cristãos, que passam a dar ordens e “comandos” para tudo, inclusive para Deus e para anjos, com os já conhecidos “eu exijo”, “eu determino”, e, mais recentemente, uma overdose de “atos proféticos”. É o caso de um grupo que, dizendo-se desafiado por Deus, viajou pelo Brasil para orar e jejuar pelo país durante quarenta dias. Quando estavam no Rio Grande do Sul, visitaram uma cidade chamada Sapiranga, onde há um morro conhecido como “Ferrabrás”, palavra que, segundo este grupo, significa “inflamação nos olhos e pálpebras que faz com que os cílios caiam”. Eis um relato típico de um “ato profético” que ocorreu no lugar:

 

Lá ocorreu um terrível massacre no final do séc. XIX contra uma comunidade inteira de crentes (...) Seu sangue clamava da terra, e estava nas mãos das trevas, o que fortalecia os demônios. Pessoas pulavam de pára-quedas do topo do monte, símbolo no reino do espírito de abutres se alimentando daquele sangue (!). No topo do monte as pessoas praticavam pára¬quedismo [e] asa-delta, se prostituíam e usavam drogas. Subimos ao monte, parando em sete pontos diferentes aonde irmãos fincaram espadas, demarcando e tomando o território (?). No cume o sangue inocente foi recolhido (?), vinho foi derramado e Deus zombou (?) do demônio que dominava aquele lugar. Os céus da cidade então ficaram limpos (!)[19]

 

Em outra passagem, o grupo passou pela cidade de Gramado e, alegando que ali “estavam os principais demônios da região sul”, registraram que somente o apóstolo e o profeta do ministério tiveram autorização para entrar na cidade, “e mesmo assim sem nada poder comprar, comer ou beber na cidade”[20]. Nota-se o zelo e empenho do grupo em cumprir aquilo que entenderam ser a direção de Deus para seu ministério. Porém, pode-se enquadrar esse relato naquilo que o apóstolo Paulo descreve como “zelo, porém sem entendimento” (Rm 10.2). A idéia de autoridade delegada é exacerbada ao limite com práticas assim, que superam, em muito, “o que está escrito” (1 Co 4.6) e o bom senso de reconhecer, de forma clara e inquestionável, que “a excelência do poder pertence a Deus” (2 Co 4.7). A aura de “super poderes” e um conhecimento reservado a uns poucos “iniciados” são exatamente afirmações que os gnósticos fazem ao longos dos séculos. É preciso levar em conta o zelo e o amor pelo país e pelas almas perdidas, porém é preciso denunciar a falta de zelo para com a boa interpretação das Escrituras, a falta de bom senso nas posturas adotadas e nas espiritualizações sem fundamento que são feitas, sem base bíblica alguma, e a falta de modéstia nos relatos desses grupos, algo que soa pedante e eivado de orgulho espiritual.

 

REFERÊNCIAS

 

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JACOBS, Cindy. Possuindo as portas do inimigo. Belo Horizonte: Atos, 1997.

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____. Misticismo e Fé Cristã - Disponível em: http://www.solascriptura.com.br/estudos/estudos-batalha-espiritual.htm.

MYATT, Alan, O Livre Arbítrio nas Seitas e na Apologética Reformada. Fides Reformata. São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, v. VIII, no. 2, 2003, p.24-25.

MASTRAL, Eduardo Daniel e MASTRAL, Isabela. Filho do Fogo. 7ª ed. São Paulo: Naós, 2002.

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____. Este Mundo Tenebroso – parte II. São Paulo: Editora Vida, 1992.

RODRIGUES, Ricardo Gondim. O Evangelho da Nova Era - Uma análise e refutação bíblica da chamada Teologia da prosperidade. São Paulo: Abba Press, 1995.

____. Orgulho de ser evangélico – por que continuar na igreja. Viçosa: Ultimato, 2000.

ROMEIRO, Paulo. Super Crentes – O Evangelho segundo Kenneth Hagin, Valnice

Milhomens e os profetas da prosperidade. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1993.

WAGNER, C. Peter. Por que crescem os pentecostais? – Uma análise do espantoso avanço

pentecostal na América Latina. São Paulo: Vida, 1994.

 

 


Fonte:  CENTRO PRESBITERIANO DE PÓS-GRADUAÇÃO ANDREW JUMPER. Disponível em: < http://www.rochaeterna.org.br/estudos/e000028.pdf >. Acesso em 18 ago. 2008. p.97-106.

 

Trecho publicado no site Mariel Marra: Reflexões da Fé Cristã < http://www.guerreirosdaluz.com.br >. por Mariel Marra, em 20 ago 2008.

 

 


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09 Março. 2007 - Curso de Libertadores: Uma análise bíblica e teológica sobre a prática de libertação no Ministério Ágape Reconciliação

http://www.guerreirosdaluz.com.br/analisebiblicadapraticadoagape.htm

 

Trecho do novo dvd de Caio Fábio chamado "Caio Fábio conta tudo"

http://www.youtube.com/watch?v=TDI0vCV4cUU

 

2º trecho do novo dvd de Caio Fábio chamado "Caio Fábio conta tudo"

http://www.youtube.com/watch?v=sX8XHSC8mEg

 

Batalha Espiritual / Caio Fábio

http://www.guerreirosdaluz.com.br/batalhaespiritual-caiofabio.htm

 

Batalha Espiritual e o Erotismo / Ms Daniela Bessa

http://www.guerreirosdaluz.com.br/batalhaespiritualerotismo.htm

 


ORKUT: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=866901

 



[1] LOPES, Compreendendo a Batalha Espiritual, p. 31,32.

[2] CABEZAS, Desmascarado, p. 25.

[3] JACOBS, Possuindo as Portas do Inimigo, p. 138.

[4] Ibid., p. 140.

[5] Ibid., p. 139.

[6] ITIOKA, Neuza. Os deuses da Umbanda, p. 79.

[7] Livros como o de MASTRAL, Eduardo Daniel. Filho do Fogo. 7ª ed. São Paulo: Naós, 2002. Trata-se de um autodeclarado ex-satanista.

[8] LOPES, Augustus N. Misticismo e Fé Cristã.. Disponível em http://www.solascriptura¬tt.org/Seitas/Pentecostalismo. Acesso em: 17/04/2004.

 

[9] RODRIGUES, O Evangelho da Nova Era, p. 68.

[10] ROMEIRO, Super-Crentes, p. 60-61.

[11] LOPES, Augustus Nicodemus. Misticismo e Fé Cristã. Disponível em http://www.solascripturatt.

org/Seitas/Pentecostalismo. Acesso em: 18/04/2004.

[12] Este raciocínio é de Watchman NEE, em seu livro Vida Cristã Normal. São Paulo: Fiel, 1982.

[13] LOPES, Augustus Nicodemus. Resenha do livro de Neuza Itioka, A Igreja e a Batalha Espiritual: Você está em Guerra! Fides Reformata. São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 1996, p. 105.

[14] LOPES, O que você precisa saber sobre Batalha Espiritual, p. 19.

[15] SHEKINAH, Estabelecendo um Ministério Local de Libertação, p. 16.

[16] Ver MATOS, Alderi Souza de, LOPES, Augustus Nicodemus, PORTELA NETO, Francisco Solano,

CAMPOS, Heber Carlos de, Fé Cristã e Misticismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. Ver também o artigo de MYATT, Alan, O Livre Arbítrio nas Seitas e na Apologética Reformada, p. 23-24.

[17] Ibid., p. 47

[18] SHEKINAH, Estabelecendo um ministério local de libertação, p. 6; ITIOKA, Curso sobre Batalha Espiritual, p. 12.

[19] Missão Apostólica Brasil 2002. Apostila. Suzano: Igreja Apostólica o Libertador de Israel, 2002, p.7-8. Minha ênfase.

[20] Ibid., p. 9.